domingo, 17 de março de 2013

10 anos do portal RHB


Até o momento não conheço muitos grupos na história do "paganismo" no Brasil que tenham comemorado 10 anos de história, e neste mês de março o portal do movimento Reconstrucionista Helênico no Brasil o faz. Talvez não possamos reduzir a história do Helenismo no Brasil à história do grupo, e menos ainda da página, mas a data tem um valor diferenciado. Não se trata tão somente de um sitio de internet, mais que isso, tem um valor simbólico como espaço de reflexão sobre a religião grega antiga, um espaço que agrega pessoas, que promove encontros, enfim, um veículo que ocupa uma posição central nessa história helênica do Brasil.

A página foi fundada em 2003, ainda no Yahoo, e há mais de 7 anos tem sido minha casa, o lugar onde encontrei parte de minha família, onde conheci amigos - alguns a bem da verdade se foram, ficaram por pouco tempo, outros desde que chegaram não me deixaram mais. Ainda lembro quando em 2005 vi a página pela primeira vez, na casa de um amigo quando conversávamos sobre o que era um bôthros. Na ocasião, ele muito satisfeito me mostrou a página do RHB, ainda na plataforma do Google Sites antiga., e de lá passeamos por entre links e abas. Lembro como fosse ontem as caixinhas que pareciam gavetas que se postavam na página de entrada em matizes de amarelo,  as letras do alfabeto grego combinadas para escrever, já em português, "Reconstrucionismo Helênico no Brasil". Aquela sensação de adentrar uma simples página de internet a mim significava algo mais, significava lar, oikos, philia, sophrosyne. Diariamente lia e relia coisas, imprimia páginas, anotava versos, hinos... algumas dessas coisas ainda tenho aqui, páginas  furtivamente impressas na escola e nos intervalos de estágio, relíquias... 

Depois trocamos o amarelo da página do Googlesites pelo azul do Forumeiros, e mais que isso, pude ver aquelas gavetas do Googlesites abertas e de lá sair vozes, sussuros e perguntas de pessoas que como eu, tinham coisas que gostariam de saber, pessoas que como eu também reverenciavam uma forma diferente de sagrado. Um sagrado que não falava latim, ou hebraico, mas que falava grego - um grego que não se media pelas letras, pelos sons, mas pela forma como comunicava ao meu coração coisas sobre mim, sobre Eles próprios e sobre o mundo. Foram muitas conversas, debates, discussões, dúvidas, horas gastas lendo, relendo... foram horas que empenhei a suor e ouro parte do que sou, do que acredito hoje.
Foram anos de piadas, amigos, tristezas, discussões árduas, mas foram anos muito especiais. Ainda hoje, quando vejo uma atualização no Facebook, ou no Fórum essa sensação se repete em mim. A sensação do desafio, da família, da amizade e da gentileza em compartilhar e trocar saberes. 

Agradeço a todos meus amigos e irmãos nesses tantos anos de batalha; meu muito obrigado: Jota, Sarah, Murilo, Antônio, mais recentemente ao Diego Vilaça. E meu muito obrigado à Alexandra Oliveira, sem a qual boa parte desse projeto não existiria. A todos os amigos que compartilharam desses anos comigo e com o grupo, meu muito obrigado pela parceria e que os próximos anos sejam tão promissores quanto foram esses anos ao lado de vocês. Acredito que é em momentos e em projetos como esse que entendemos o significado de palavras que por vezes passam desapercebidas entre leituras e preces, mas que são a base de nossa comunidade: família, virtude, trabalho.

A todos os deuses e deusas que colaboraram e inspiram nosso trabalho, aos ancestrais meus e de meus amigos, meu muito obrigado.

Thiago Oliveira

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Ανθεστήρια 2013

Lembro que em algum lugar entre páginas e relógios Demócrito disse que "uma vida sem festivais é como uma longa estrada sem qualquer paragem". Alongando essa estrada, para mim os festivais têm sido como trilha sonora para os fatos da minha vida; eles se mesclam e costuram-se aos fatos reles do cotidiano e mais que um ritual, uma suspensão, são os momentos de encontro e desencontro entre o que me fala o divino, e o que dele escapa sem que eu perceba. Pensando nas formas com as quais nos comunicamos na vida moderna (e-mail, chat, celular), entre tantas formas que temos de conversar e estar com os deuses, os festivais são os momentos de bate-papo, conversa olho no olho, os momentos de epifania. Ainda assim, par a um espírito tão taurino e as vezes demasiado preso as durezas da terra, deixar de lado as pata-raízes e permitir-se guiar apenas pelos chifres é um desafio. Assim, como quem busca firmeza caminhando por um pântano, poucas vezes me senti tão preenchido por um festival como fui pelas Anthesterias esse ano.

Em geral se diz que Anthesteria é o festival das flores, a abertura dos potes com o vinho recém fermentado e sua celebração como dádiva de Dioniso. É também, na região da Ática, quando Ele chega à superfície após sua estada no Hades, trazendo consigo também alguns dos espíritos que por lá habitam. Ainda assim, a Anthesteria, talvez pela sua antiguidade, é um festival bem mais complexo, com várias narrativas que se sobrepõem: Orestes, Icário, Erígone - além das narrativas dionisíacas próprias do período. Essa sobreposição, acredito, é bem característica desse momento onde os limites entre vivos e mortos, superfície e submundo não estão claramente definidos.

As imagens a seguir recompõem um pouco dos acontecidos nestes três dias de festa; um relicário das coisas que vivi e aprendi, traduzidas em cores, sons, ritmos, sonhos, gostos. E que venham as flores! 


Preparação


Montagem do altar, abertura do vinho


Primeiras ofertas e degustação


altares e santuários protegidos durante o dia de khoés





preparando as guirlandas em memória de Dioniso e Orestes


oficializando os ritos do dia de khoés


panspermia

oferta aos sátiros