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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Theoi Ktesioi (1)

Por alguns momentos já mostrei aqui no blog meu descontentamento quando percebo em alguns adeptos do Helenismo a redução de toda a religião e do culto em torno dos festivais. Os festivais são momentos de ápice, são uma espécie de encontro marcado, mas, apesar de sua centralidade e importância, não podem expressar toda a riqueza da experiência religiosa helênica. Há uma série de outros aspectos e facetas do culto que o devoto deve investir, a exemplo da atenção aos daemons do lugar onde vive, o culto dos deuses domésticos, bem como aos heróis e ancestrais, e outras  instâncias mais (algumas deveras problemáticas para os praticantes modernos) que não cabem ser mencionadas nesse pequeno texto, que pretende mais ser um retomar as atividades do blog do que propriamente dissertar. 

Assim, resolvo postar aqui algumas fotos de um ponto que venho investindo muito ultimamente que é o culto aos theoi ktesioi, os deuses protetores da casa, ou deuses domésticos, como queiram. As imagens são alguns pequenos altares e monumentos que no espaço da minha casa venho construindo para tais deuses (Zeus, Héstia, Hécate, Hermes, Hérakles, e os gêmeos Castor e Polideuces) para o culto especialmente nesse aspecto. 



Hécate e Hermes são os deuses condutores, senhor e senhora dos caminhos. Traducionalmente sues monumentos domésticos são apresentados no jardim da frente da casa. Como minha casa não dispõe desse espaço, resolvi trazê-los para o jardim dos fundos, depositando seus monumentos na parede onde tenho algumas plantas e onde estou erguendo uma herma. Para a entrada da casa estou preparando uma pequena tábula com os nomes de ambos.

Aqui a herma que estou iniciando a erguer e uma pequena oferta a Hécate.


Aqui um pequeno memorial para Hérakles que venho dispondo no corredor frente à porta principal de minha casa. Os dizeres "Aqui, Hérakles triunfante e glorioso reina. Aqui o mal não é permitido entrar" era comum como forma de proteção e foi encontrada em vestígios de muitas casas atenienses, em geral atrás das portas.

E por fim, a chama de Héstia que fica no altar central do lar. Além dessa também há o altar para Zeus e Héstia na cozinha, o qual pretendo mostrar numa próxima ocasião.


Eirene theoi.
Th!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Uso e Construção das Antigas Kolossoi Gregas

O presente texto é a tradução do artigo "Construction and Use of Anciente Greek Poppets", escrito por Apollonius Sophistes e publicado em 1996. Ao longo do texto foram inseridas algumas alterações de caráter linguístico e extra-linguístico de modo a torná-lo mais fluído aos leitores, independente do nível de familiaridade que tenham com a cultura e as práticas religiosas dos povos gregos antigos.

Nesse artigo se trata especificamente sobre os usos e construção das kolossoi, espécies de bonecas empregadas para realizar maldições e que constituem um dos poucos recursos de feitiçaria publicamente empregadas na antiguidade. É preciso lembrar que os gregos não viam esse tipo de prática com bons olhos; em algumas cidades e vilas as práticas de feitiçaria eram proibidas por constituições, em outras era tida como prática atrasada de povos bárbaros- porém, esse é um ponto que por agora não nos interessa discutir. Boa leitura!

 ***

I. Introdução

Este ensaio trata do uso e construção de antigas bonecas gregas (efígies rituais, bonecas vodus); estas bonecas são a substância basilar das “amarrações e encarceramento das forças malignas”, como dito por Christopher Faraone, que será citado ao longo de todo este artigo. No grego antigo, uma imagem ritual era frequentemente chamada de “kolossos”, palavra de origem incerta que pode ser usada para referir-se a efígies de qualquer tipo. Os usos dessas efígies pelos gregos datam de tempos anteriores ao século IV AEC e são similares às formas de uso espalhadas pelo Mediterrâneo, considerando, obviamente, que há diferença. Uma característica distintiva do uso grego das Kolossoi é que, em princípio, seu uso é defensivo; é geralmente utilizada para conter uma força hostil em vez de destruí-la.

II. Propósitos

O propósito geral das kolossoi é a “amarração” de alguma forma, mas essa amarração pode ser aplicada a várias formas de ser e para vários propósitos. Primeiro: as amarrações podem ser aplicadas às deidades, que não podem ser destruídas, mas podem ser restringidas (mesmo assim essa limitação tem que ser entendida como uma ação ritual dada pelo deus como um meio específico pelo qual sua energia é direcionada para um propósito específico). Algumas vezes, as kolossoi são usadas para conter uma deidade perigosa, que pode causar prejuízos ou que é tida como favorita dos inimigos. Assim, Ares, deus da matança e das mortes nos campos de batalha, pode ser amarrado para dar segurança na batalha ou para reduzir a possibilidade de uma guerra.

As deidades protetoras também podem ser amarradas para impedi-las de partir. É o caso dos atenienses e sua Nike áptera - lhe tiram as asas para impedir que Ela parta da cidade. Esse pode ser também o sentido da paradoxal história de Pandora prendendo a esperança na jarra após ter deixado escapar todos os males do mundo – frequentemente as kolossoi são presas em jarros potes. Nesse sentido, Ares algumas vezes é preso como uma divindade protetora, ainda que na ausência de inscrições seja difícil dizer se ele está sendo preso como uma força hostil ou amigável. Ainda assim, Ele pode ser tomado em ambos os aspectos ao mesmo tempo: preso para ficar aqui e nos proteger e para impedi-Lo de bandear-se para o lado inimigo. Podemos ver também representações de Hefesto como um deus que pode tanto amarrar como desamarrar (NT: para isso veja como ele prende Ares e Afrodite na cama para provar a infidelidade da deusa do amor, ou como Ele prende Hera ao trono de ouro na sua volta ao Olimpo). 

Segundo ponto: as kolossoi podem também ser usadas para conter fantasmas e outros hikesioi apaktoi (visitantes hostis). Novamente, eles não podem ser mortos – afinal, já estão mortos -, mas podem ser presos. No caso de fantasmas, especialmente, a cerimônia de amarração pode seguir os costumes funerários da região e então ajudar a garantir que o fantasma definitivamente será mandado e levado para o mundo dos mortos.

Terceiro: kolossoi são usadas para amarrar os inimigos mortais. Esses inimigos podem ser um goês (feiticeiro) que mandou um eidôlon ou um phasma (fantasmas) contra alguém, ou um inimigo mundano (como por exemplo os opositores em ações judiciais). Nos casos em que não se conhece o opositor um par de kolossoi – um masculino e outro feminino – são utilizadas. Quando o número de inimigos é maior quer um (como uma família ou todo um exército) comumente se usa três kolossoi seguindo o princípio de pars pro totó (das partes ao todo). Finalmente, as kolossoi podem ser utilizadas para prender um companheiro – em qualquer aspecto – a um juramento.

Podemos falar brevemente sobre as kolossoi eróticas, que geralmente pretendiam amarrar alguém para que este se apaixonasse, fosse fiel ou para afastar rivais. Esse é um tópico grande e não será discutido ao longo deste ensaio, mas a maior parte dos princípios aplicados na sua construção e uso são os mesmos descritos aqui (cf. Winkler, 1991).   

Um importante uso das kolossoi para defesa é a proteção das fronteiras, razão pela qual elas poderiam ser presas aos muros, cercas ou outras fronteiras. Também eram usadas tanto para a defesa privada, das casas, como para a defesa pública, da cidade ou vila. Em outras oportunidades já pude indicar como eles eram utilizados pra proteger, por exemplo, um templo e outras construções; o uso público também pode seguir no sentido de proteger contra uma invasão inimiga. Já o uso privado é tipicamente com o propósito de proteger os indivíduos e suas famílias.

Em alguns casos, quando uma proteção permanente é necessária, as kolossoi são regularmente amarradas novamente. Um exemplo disso é a amarração anual de Ares para a proteção da cidade de Syedra (NT: atualmente localizada no território da Turquia). Um ano antes Ele é desamarrado durante um período de liberdades semelhante a Saturnália romana (isso pode ser relacionado ao que nos conta Homero no canto V da Ilíada, quando Ares é preso em um caldeirão por treze meses lunares). Outras divindades frequentemente presas para proteção são: Ártemis, Dioniso, Hera e Athena. 

III. Construção

Voltemo-nos agora à construção das kolossoi. Elas poderiam ser feitas de metal (como bronze, prata ou chumbo, que posteriormente tornou-se o metal mais comum), madeira, argila, cera ou materiais maleáveis similares. A imagem geralmente não era realista, já que a conexão da boneca com um indivíduo não dependia da aparência ou similaridade. A aparência está na verdade relacionada a outros significados, como será descrito mais a frente. Geralmente a figura está nua e há um exagero comum nas genitálias, pés ou outras partes do corpo. Isso, por sua vez, relaciona-se ao princípio de utilizar imagens obscenas ou chocantes para afastar mal e outras formas de perigo (como por exemplo, a figa e amuletos fálicos).

Geralmente também, algumas partes da figura são torcidas para trás, para indicar a incapacidade do sujeito. A cabeça também pode ser torcida, ou, por fim, deixada absolutamente distante do resto do corpo, para causar confusão. Também são comuns a torção do pé, e algumas vezes, dos braços ou do tronco inteiro (Como Hefesto, que algumas vezes é representado com os pés para trás). Em alguns casos, o kolossos são feitos com essas partes já para trás, mas o mais comum é serem feitos normais e serem torcidos depois.

A perfuração com pregos ou agulhas (treze é o número mais popular) tipicamente feitas com ferro ou bronze; presas de animais e outros matérias também podiam ser utilizados nesse processo. Cada agulha ou prego transfixa alguma parte do corpo, representando a faculdade que desse modo será paralisada – mas sem destruí-la. Por exemplo, os pregos através dos olhos, ouvidos e boca paralisam as faculdades cognitivas, através do coração pode restringir a vontade própria, e através dos membros podem causar a paralisia ou perda da força.

A kolossos também pode ser mutilado para restringir o inimigo. Por exemplo, a cabeça pode ser decepada e amarrada em separado do corpo (para evitar que seja recolocada), ou a efígie pode ser queimada, derretida, esmagada, pisoteada, etc (essas medidas agressivas normalmente não são utilizadas para os fantasmas, em vez disso é dado um ritual fúnebre ao colossos. Os fantasmas são normalmente chamados pelo nome por três dias ou três vezes em um dia para convocar a casa ao funeral deles.).

Além de serem transfixadas, as figuras normalmente são amarradas. Por exemplo: os braços e pernas podem ser amarrados (normalmente para trás), e algumas vezes os braços são amarrados às pernas. Poderia haver um colar ao redor do pescoço ou um algo fechando a boca (que poderia ser um prego ou parafuso). Algumas vezes a kollosso era amarrada junto a outros objetos, como um amuleto erótico.

Os materiais que poderiam ser utilizados para amarrar incluir faixas de chumbo, arames de bronze, agulhas e correntes de ferro (para kalossoi maiores). A figura também podia ser amarrada a si mesma, por exemplo, com a mão direita na sua própria boca (ainda assim presa pelos pregos) e a mão esquerda no ânus.

A kolossos é identificada com sua vítima por encantos ou inscrições, sendo normalmente utilizado os dois. A pessoa (deidade, fantasma ou pessoa) é mencionada pelo nome, se seu nome é conhecido, incluindo-se também frequentemente o nome dos seus patronímicos ou o nome da mãe do sujeito, por exemplo: Fulano, filho de sicrano, que perturbou....”. O nome do indivíduo é geralmente inscrito na parte esquerda da colossos, sendo mais comum no quadril, perna e braço, e pode também ser escrito com tinta vermelha. A inscrição é também acompanhada por uma fórmula de amarração (como será descrita a seguir).  

A kalossos também pode ser identificada com uma pessoa pela incorporação de sua Ousia (substância): coisas conectadas como sujeito, como por exemplo, uma pedaço de cabelo, pedaços de unhas ou um pouco de roupas podem ser incorporados ao interior do boneco de cera.  Por fim, as kolossoi de cera ou argila podem ser modeladas em torno de um papiro contento um feitiço mencionando o nome da vítima.


As kolossoi pertencem ao mesmo grupo de práticas dos Defixiones ou Katasdemoi (as chamadas “tabuletas de maldição"), já que podem ser feitas grandes o suficiente pra acomodar nomes e feitiços. Assim, podemos ter kolossoi na forma de tábuas ou folhas de chumbo trazendo inscrições das vítimas possivelmente vinculadas a espíritos hostis. Como folhas de chumbo, ou papiros equivalentes, podem ser dobradas ou enroladas, e também podem ser espetadas com pregos (por isso, defixio, de defigo, fixar para baixo) para realizar a amarração


IV - IV. Katadesmoi
Além da identificação da kolossos com sua vítima, há geralmente alguma fórmula de amarração (Katadesmos – pronúncia: ká-TÁ-dés-môs) que pode ser inscrita na kolossos, como dito anteriormente. As duas formas ainda podem vir juntas (kolossos e katasdemos). Elas podem tomar diversas formas, algumas mais outras menos elaboradas. As inscrições podiam ser feitas ao avesso para aumentar o nível de confusão da vítima. O feitiço falado é geralmente acompanhado por ações rituais como a mutilação, perfuração e amarração da figura; além disso, o defigens (“amarrador”) pode tocar o chão ao invocar as deidades ctônicas, ou erguê-las ao céu para chamar pelos deuses celestes.

Em uma situação simples o defigens apenas declara: “Por este meio eu amarro ____”.
Outra alternativa é expressão de um desejo: “Possa ___ ser derrotado”. Ou, “Que _____ seja dominado”.

O feitiço pode tomar a forma de uma prece para algumas divindades para assim reter a vítima. Frequentemente a vítima é entregue ou prometida para a divindade (como deixado sob sua tutela, presa) – uma coisa esperta a fazer, já que a responsabilidade da amarração está com os deuses. Embora se pudesse solicitar a qualquer deus ou deusa, era particularmente mais adequado apelar durante a sagração para Hermes Katokhos (o que restringe). Outras divindades chamadas para a amarração são Gaia, Hécate Khtonia e Perséphone.

Eis alguns exemplos de fórmulas de amarração.  
Ó Hermes Katokhos, prende ________.

Eu prometo _________ aos deuses,
A Geia, Hécate e Perséphone.

Eu amarro _____, nascido de _______
Na tua presença, Hermes Katokhos
Que ele/a seja preso
Em mãos, pés e corpo.

Finalmente, pelo princípio mágico de similia similibus (similar para similares) o encantamento pode pedir que a vítima seja analogicamente presa pela amarração da efígie:

Por estes meios eu prendo ____ a laços de chumbo.

Analogias podem ser invocadas com o material da kolossos ou sua disposição:
Assim como o chumbo é frio e impotente
Também frio e impotente _________ é.
Frio em saber, pensamento e memória!
Sua alma, mente , língua e planos;
Que todas essas coisas sejam retorcidas.

Para uma kolossos enterrada em um cemitério:
Assim como os mortos são impotentes e imóveis
Assim também __________ será;
impotentes e imóveis serão seus pés, mãos e corpo!

Eis uma fórmula típica para amarrar as partes de um juramento:
Assim como derrete e escorre essa imagem
Faça com que quem quebre esta promessa
Da mesma forma se derreta e desfaça
Que pereça todas suas sementes e propriedades!

E por fim, uma fórmula recorrente usada para proteção das fronteiras:

Enquanto o selvagem Ares se encontre neste solo
Por aqui homens inimigos não serão encontrados

O poder do feitiço cresce pela repetição e pela métrica; assim também múltiplas divindades podem ser invocadas e outros epítetos e títulos podem ser listados.

V. Disposição
Algumas vezes, a kolossos é ritualmente destruída, mas para as amarrações o mais comum era que fossem confinadas e enterradas. Primeiro, a kolossos é hermeticamente confinada em uma caixa de chumbo com tampa, embrulhada em uma folha também de chumbo, ou colocada em um caldeirão ou caixa de cobre ou bronze (Mas, o chumbo, é claro, ainda é o símbolo maior da amarração). O recipiente onde se encontra a kolossos é frequentemente preenchido com inscrições, dentro ou fora, com nomes, feitiços, faixas e ou figuras amarradas. Isso também pode ser escrito e desenhada em papiros, que então são usados para embrulhar a kolossos. Em alguns casos, o kolossos e o recipiente é deixado em um pote de argila, para prendê-la mais ainda. Por fim, você pode se desfazer da kolossos: elas podem ser deixadas em águas profundas, tais como poços ou mesmo no oceano, ou, como mais comumente acontecia, enterradas, por exemplo, em um cemitério, santuário ou terra infértil e não cultivável. Tanto a terra como a água  são caminhos que levam aos deuses ctônicos. Esse tipo de disposição torna mais difícil que a kolossos seja encontrada pela vítima, fazendo assim com que a ligação entre ambas se perca.

VI. Desamarração
É necessário ainda, mesmo que em poucas palavras, comentemos um pouco sobre a remoção das amarrações (o que se chama eklusis – pronúncia: ÉK-lu-sis). Em geral, só o defigens ou os deuses que foram invocados são capazes de dissolver os vínculos da amarração. Nesses casos, a melhor opção é que a vítima ofereça um sacrifício e faça preces aos deuses, ou para os deuses que têm o amarrado, ou, caso eles não sejam conhecidos, para todos. A amarração também pode ser desfeita se outro defigens ou a própria vítima encontram a kolossos e sistematicamente a desamarram – por exemplo, removendo faixas e pregos, colocando a cabeça e membros na posição certa, etc.

Referências
  1. Faraone, Christopher A., “Binding and Burying the Forces of Evil: The Defensive Use of ‘Voodoo Dolls’ in Ancient Greece,” Classical Antiquity, Vol. 10, No. 2 (Oct. 1991), pp. 165-205, with 7 figs. & 13 pls.
  2. Faraone, Christopher A., “The Agonistic Context of Early Greek Binding Spells,” in Christopher A. Faraone & Dirk Obbink (eds.), Magika Hiera: Ancient Greek Magic and Religion, New York: Oxford University Press, 1991, pp. 3-32.
  3. Ogden, Daniel, Magic, Witchcraft, and Ghosts in the Greek and Roman Worlds: A Sourcebook, Oxford: Oxford University Press, 2002, esp. ch. 12.
  4. Strubbe, J. H. M., “‘Cursed Be He That Moves My Bones’,” in Christopher A. Faraone & Dirk Obbink (eds.), Magika Hiera: Ancient Greek Magic and Religion, New York: Oxford University Press, 1991, pp. 33-59.
  5. Winkler, John J., “The Constraints of Eros,” in Christopher A. Faraone & Dirk Obbink (eds.), Magika Hiera: Ancient Greek Magic and Religion, New York: Oxford University Press, 1991, pp. 214-43. 
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O texto fonte com as imagens originais podem ser consultado AQUI.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Hellenismos: Rituais para Crianças

Confesso que fiquei surpreso quando uma amiga me falou que seu filho havia pedido sugestões de "rituais para crianças", mas é verdade que a comunidade não cristão vem crescendo e novas formas de família vão surgindo, inclusive as comunidades politeístas. Há pelo menos umas três famílias de amigos do meu convívio próximo que educam seus filhos em moldes de vida que não aqueles cristão, sejam eles celtibéricos, reconstrucionistas helênicos, kemetistas ou puramente "pagãos" na concepção mais comum do termo. 

Mas chega de teorizações. A questão que me foi proposta era de dar pequenas soluções para celebrações que pudessem ser feitas com crianças ou em que elas pudessem ser inseridas. Observando a historiografia helênica não é difícil de ver a criança envolvida na vida religiosa, para citar alguns momentos: onomatodosia (a celebração de imposição do nome da criança feito pelos pais e paranymphos), Anthesterias (onde as crianças são especialmente envolvidas, sendo entendidas não só como símbolo de fertilidade, mas como representação do crescimento da comunidade), Kourotrophos  (as celebrações gerais dessas divindades ligadas ao cuidado da criança e sua educação). 

Os pais com os pequenos

Estes exemplos mostram que a criança está constantemente envolvida na vida religiosa, ao menos no contexto helênico que é o foco deste blog. No ambiente contemporâneo alternativas de reconstrução e inserção das crianças não são difíceis. Para os pais que desejam envolver seus filhos nas atividades rituais e nos festivais¹, por exemplo, há uma série de funções que podem ser atribuídas as crianças, tais como o carregador da água ou da oferta, o portador da khernips, e para o caso de crianças mais sensíveis e que tenham alguma experiência com oráculos, até mesmo a função de mantis; além dessas funções acredito ser saudável  e importante que haja espaços para a criança mostrar sua relação para com os deuses, sendo assim ela pode fazer suas ofertas e libações junto com os pais ou responsáveis. 

Um fator que acredito ser bastante relevante é oferecer a criança a oportunidade que ela monte seu próprio altar. O altar é um espaço bastante pessoal que não pertence a quem o monta, mas sim para quem se monta. Sendo assim, a sacralidade que o envolve não está apenas pelo que se coloca, mas no porque se coloca, ou seja: para dar. Nesse sentido entendo que essa devesse ser uma atividade própria da criança e livre, ou seja, é bom que os pais evitem a típica mania reconstrucionista que deseja prezar sempre pela coerência dos símbolos e fatos e deixar que a criança monte o altar com os elementos que simbolizam a sua própria relação  com os deuses. Nem sempre  o que comove ou significa para a criança é o símbolo mais óbvio. A criança pode representar Posídon, por exemplo, com uma estrela do mar, tridente, barco, pedra, um golfinho, cavalo,  ou apenas com um copo de água. Há de se ter flexibilidade para que a criança desenvolva sua experiência com os deuses e construa seus conhecimentos a medida que vai aprendendo e vivênciando essa visão de mundo. 

As crianças com os deuses
São inúmeras as atividades que as crianças podem desenvolver no seu culto pessoal para com os deuses, a seguir faço algumas sugestões.
  • Desenhos: Desenhos são ótimas ofertas votivas e podem ser feitas por crianças de quase todas as idades. Além de expressar sua relação com os deuses e os seu sentimentos para com eles, eles podem ser usados nos altares como forma de representação em substituição a estátuas e imagens tipificadas por exemplo. Além disso podem ser montados cadernos de desenhos que podem servir de guia para representações ou como espécie de histórias em quadrinhos contando mitos sobre os deuses ou heróis que em determinados momentos podem ser ofertados.
  • Representações: O teatro e toda forma de representação é central nas atividades de culto. Em certa medida, todo ritual ou festival é a reencenação de um mito, ou seja, uma representação mais ou menos teatralizada de algo que é importante para a comunidade. As crianças podem elaborar pequenas peças ou contações de histórias para as outras pessoas (inclusive os pais) com mitos e histórias envolvendo deuses, heróis e daemons. 
  • Escrita: assim como o desenho, a escrita é um excelente presente votimo. Poemas, canções, histórias podem ser ofertados aos deuses em qualquer momento. 
  • Modelagem: crianças menores podem usar massa de modelar e as maiores argilas para confeccionar imagens dos seus deuses preferidas e depois usá-las em seus altares ou ofertá-las como peças votivas.
  • Memórias: O registro da memória da família é muito importante, pois a noção de Ôikos, a casa-família é outra base não só da ética helênica, como também da religião civil e doméstica, para isso basta lembrar que os deuses se organizam como uma família. Uma sugestão que dou é que a criança seja responsável pelo registro dessas atividades e acontecimentos que são importantes para a sua própria história como também da família. Um baú pode ser confeccionado e devotado a Héstia e Zeus com essa finalidade.


Modelo Simplificado de Ritual para Crianças
A libação é o ato mais simples e um dos mais significativos que pode se executado pelas crianças. Para isto basta que a criança escolha algum líquido a ser ofertado: suco, água, vinho, leite, mel, azeite ou óleos. Em seguida: 
  • Cante uma canção para Héstia ou caso seja maior ela pode recitar o Hino Homérico a Héstia
  • Derrame uma parte do líquido para Héstia
  • Conte uma história, recite um poema ou cante uma música que lembre ou mencione o deus que se pretende homenagear e ....
  • verta-se o restante do líquido oferecendo-o para este deus ou deusa. 
  • e por fim agradecer a Héstia e aos deuses. 


A seguir um pequeno modelo mais completo de ritual que pode ser seguido pelas crianças.  
  • Acenda uma vela e faça uma pequena prece para Héstia
  • Com uma bacia de água, faça a bênção da água e limpe o lugar.
  • Conte uma história, recite um poema, ou cante uma música que lembre  Héstia e outra mais para o(s) deus ou a(s) deusa que será(ão) homenageado(s). 
  • Apresente suas ofertas ou oferendas; podem ser frutas, bolos, seus desenhos, músicas, etc. 
  • Faça uma libação, vertendo algum líquido no solo.
  • Acenda um incenso e agradeça.
Após isso pode-se fazer uma celebração, uma verdadeira festa envolvendo a criança e a família. Nos preparativos todos podem participar e colaborar, por exemplo, na preparação do bolo, de doces, salgadinhos e na decoração. 


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¹ Texto escrito a pedido do meu sobrinho, Pipe
² Num aspecto amplo as crianças podem ser envolvidas em quase todas as celebrações e festivais do mundo helênico, exceto alguns festivais de Dioniso e Deméter.
* fotos retiradas dos sites do YSEE e Delphýs

domingo, 21 de novembro de 2010

#2 e #27 - 30 Dias de Hellenismos - História e Comunidade


A questão que coloco a debater é a seguinte: como construir uma tradição sem um percurso histórico? É possível? Qual a posição e os problemas do reconstrucionismo helênico nesse movimento de volta às antigas práticas religiosas ?

O que observo é que nos últimos anos o movimento neopagão vem se subdividindo numa série de organizações, separadas muitas vezes por apenas questões de afinidade na liderança, e que costumeiramente se chama "tradição"... e essas são inúmeras. Mas o que é uma tradição? 

Reconheço uma tradição como um conjunto de práticas sociais executadas por uma comunidade e que tem como objetivo a perpetuação de certas práticas ou idéias sociaios que são importantes para esse grupo, sendo essas mesmas práticas, herdadas de outros membros mais antigos da comunidade. No entanto, para que essa tradição possa se estabelecer  é fundamental o tempo, ou mais precisamente o 'longo tempo', que permite que essa determinada comunidade possa construir e legitimar essa tradição. 

É esse o elemento fundamental das religiões pagãs, porém também um dos seus grandes problemas. Como um dado grupo que tem muitas vezes pouco menos de década de existência pode legitimar-se como tradição? Como e quais os elementos que definem essa tradição e a diferencia das demais ? 

Não tenho resposta para essas perguntas, mas como questionador que sou, acredito que sejam estas perguntas que qualquer adepto de uma religião pagã contemporânea deve fazer-se para contribuir com a legitimidade e reconhecimento de sua orientação religiosa como algo sério. Religião não remete unicamente à práticas cultuais, mas essencialmente a uma vivência dessa religiosidade; religião é antes de tudo experiência do sagrado compartilhado, vida em comunidade, independente das fronteiras geográficas. O que caracteriza uma prática cultual no contexto religioso é uma relação de pertinência e reconhecimento que esta estabelece em relação a algo superior que se partilha com uma comunidade. Não existe religião sem comunidade; isso seria apenas uma crença pessoal.

Mas qual a relação do reconstrucionismo com essa necessidade de ancestralidade, de tradição? Sem dúvida a mesma que a das demais religões pagãs, porém, como religião étnica que é, temos um legado histórico, especialmente o Hellenismos que é religião de um povo que tem um impacto profundo sobre a vida ocidental. Porém não estamos isentos das preocupações de qualquer outro grupo religioso, mas temos este problema num nível diferenciado: enquanto as expressões mais novas do movimento pagão procuram construir sua identidade religiosa com base em práticas que lhe são convenientes e necessárias, o esforço do Hellenismos é    o de dar continuidade a uma tradição em certa medida interrompida. Em certa medida, isso é fácil, acontece que o problema é maior; vivemos num mundo diferente. Aos moldes do Pierre Menard de Borges, nosso problema não é ser politeísta helênico reconstrucionista nos tempos de politeísmo helênico, mas ser politeísta helênico reconstrucionista nos dias de hoje. 

Como reconectar nossa visão do mundo com um mundo que hoje é sensivelmente diferente, apesar de nas suas bases similares à Grécia Antiga ?

Não bastasse ainda esse problema, coloco mais uma questão: toda comunidade requer uma organização, como reconhecer a legitimidade de sacerdotes e sacerdotisas que se perpetuam pelo meio neopagão sem qualquer instrução necessária, baseados apenas em leituras, ou pior, intuições pessoais? Que impactos provocaria isso sobre uma comunidade pagã? Pode-se falar numa comunidade pagã ?

domingo, 7 de novembro de 2010

Nota rápida - Moda e Crenças Religiosas



Diferente da idade média, a vaidade na Grécia não era condenável. Dierente disso estar bonita, independente da sua condição física era prova da sua disposição em tornar-se uma pessoa melhor. Mas moda não é o tema principal desse post, ela é apenas um ponto de partida. 

Tão numerosos quantos os oráculos são as superstições na Grécia antiga. Era muito comum entre os gregos usar símbolos de proteção, a exemplo de fitas coloridas nos tornozelos e jóias nos pulsos. Essa é uma idéia que tenho adotado nos últimos tempos e que eu gostaria de compartilhar. Primeira vez que me veio a idéia foi durante a Thargelia deste ano quando me deu na teia de usar duas fitas que havia usado durante a celebração como um símbolo d'Eles  (Ártemis e Apolo) como símbolo de proteção. Então dediquei repidamente as fitas molhando-as em água lustral e as coloquei no braço (vide foto no nício do texco). Recentemente tenho usado também uma fita vermelha pra Hermes pra afastar o olho gordo e qualquer idéia ou coisa que se volte contra mim.

Mas vamos lá, tenho procedido de modo muito simples: depois de comprar a fita, acendo a vela pra Héstia e preparao uma bacia com khernips,  em seguida faço uma rápida dedicação aos deuses a quem a fita é direcionada, em seguida molhando-as na água ou salpicando a água sobre elas, logo depois ponho onde quero e uso normalmente.

O período de tempo tem variado, se uso para algum evento específico, como uma entrevista ou prova, uso-a apenas durante aquele dia, ou se é para algum festival durante o festival, ou por semanas... meses, enfim.. depende da proposta a que vc se propõe. Também tenho costumado escrever o nome dos deuses  em grego nas fitas, ou pequenas preces como no caso de Hermes "leva-me por bons caminhos, sempre rápido e veloz filho de Zeus e Maia", mas você também pode inserir epítetos e/ou símbolos relacionados a eles. A cor da fita em geral se relaciona à cor mais usada para o deus, como púrpura pra Zeus e Dioniso, azul pra Atena, turquesa pra Afrodite, branco pra Hera e Héstia... mais sobre os símbolos e cores, bem como os epítetos  você pode ver aqui.

Caso você queira misturar fitas você pode fazê-las trançadas, como eu fiz na foto, mas é bom que se tome cuidado pra não misturar deuses que não se dão muito bem entre si. Caso você queria fazer isso e os deuses estejam nessa condição, algo que podes fazer é usá-las em braços/mãos, tornozelos/pés fdiferentes. 

domingo, 11 de julho de 2010

Calendário - Ekatomabion

Começa ao pôr-do-Sol desta segunda-feira, 12 de Julho do ano civil, o mês de Ekatombaion, no calendário Helênico, e consequentemente a celebração ano novo ateniense, marcando o início 2° ano das 697°Olimpíadas. Como forma de comememoração durante este ano sempre ao início de cada mês divulgaremos sempre um calendário personalizado com as festividades de cada mês. Para fazer o download e imprimir, clique AQUI .

clique na imagem para ampliar

Como cai no dia da Noumenia, a celebração de ano novo geralmente é bem semelhante. Há uma limpeza da casa, flores são depositadas nos altares, junto com ofertas e pedidos. Você também pode aproveitar o dia pra fazer uma faxina especial na casa, limpando-a para receber os ventos do novo ano, fazendo votos de agradecimento e retribuição aos seus deuses patronos, aos Ktheios Theoi (deuses da casa) e também ao seu Agathos Daimon. Também é um bom momento para convidar os amigos e fazer um simposyum, um banquete ou refeição compartilhada com eles e com os deuses. Enfim, kaló neo étôs, oloi sas, Élênes (Bom ano novo, todos vocês, Helenos)!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mounykhia

A Mounikhia é o festival que dá nome ao mês de Mounikhion, supostamente por ser dentro deste mês o festival de teor mais significativo para grande parte dos gregos antigos particularmente da região do Esparta, Atenas e Beócia, de onde se tem mais registros.

O festival é caracterizado pelo culto de Ártemis como deusa da Lua e Senhora dos Animais (Potnia Theron), e também em honra do herói Mounykhos. Conformo diz Suidas, Mounikhos era governante da cidade de Mounikhos, onde lá tinha seus promontórios. A cidade passava por um momento de crise, até que uma ursa apareceu e tomada pela voz da Deusa, disse aos atenienses o modo de acabar com a fome: era preciso que uma das meninas da aldeia fosse sacrificada à deusa. Ninguém se havia comprometido em fazer tal ato, até que Baros se ofereceu para tal serviço, justificando que sua família detinha as obrigações do sacerdócio. Então ele vestiu a filha e adornou-a, levando-a para o temenos e escondendo-a lá; feito isso vestiu uma cabra com as mesmas roupas e adornos e a sacrificou, como simulacro.  Suidas também mencionar que Mounikhyon era um monte em Athenas que era usado nos sacrifícios em honra de Ártemis Mounykhia.

Esse mito justifica grande parte das atividades desenvolvidas no festival no seu contexto antigo, em especial as encenações de meninas vestidas de saias para dançar da dança das ursas e o sacirfício da cabra para Ártemis Mounykhia.

O festival era aberto com uma procissão, como de costume na maioria dos festivais gregos. Não há registros exatos sobre como se procedia essa procissão, mas de modo geral pode-se dizer que os celebrantes faziam o percurso do templo até o local da festividade contarolando hinos e fazendo preces à Ártemis e ao herói local.  Cada pessoa levava consigo uma torta esferóide donde pequenas tochas chamadas 'dadia' eram afixadas, que seria posteriormente ofertadas à Ártemis como deusa da Lua. A estas tortas chamavam amphiphonte, que poderia ser traduzido como 'aquilo que brilha dos dois lados', que pode ser entendido por dois aspectos: o primeiro é a menção antiga de que as ofertas eram feitas quando o sol e a lua estavam ambos visíveis, e a segunda possibilidade pode ser que as dadia signifiquem o nascer e o pôr da lua.  Após isso é feito o sacrifício da cabra, notadamente uma cabra fêmea, reencenando o mito original de Baros, e dão-se início aos jogos e festividades, donde a principal competição é o da dança das meninas-urso, as Arktoi, jovens meninas que dançam vestidas em roupas curtas de cor açafrão, reencenando a dança dos ursos em homenagem à Ártemis e ao urso que profetizou a forma de acabar com a fome em Mounikhia.

Adaptando o festival aos dias de hora, podemos fazer ofertas e libações para Ártemis, recitando poemas pessoais ou hinos para Ela. Não havendo possibilidade de fazermos as tortas, podemos usar biscoito, pães ou bolos em com desenho (em papel de arroz, que é uma possibilidade), ou formato de cabra.  Outra possibilidade é você se engajar em atividades relaciondas à festividade, como presentear crianças, visitar um orfanato... as possibilidades são muitas. O festival também é uma oportunidade para você começar a praticar esportes, ou repensar no sentido do heroísmo e de quem são seus ídolos e herói no mundo de hoje. Em todos os casos, as experiências são todas recompensadoras.  Bom festival a todos.

sábado, 3 de abril de 2010

O Sacerdócio no Reconstrucionismo Helênico

Uma questão que tem sido levantada nos últimos tempos e com bastante reverberação pelos novos e não tão novos membros do grupo reconstrucionista helênico no Brasil é o sacerdócio. Como proceder numa prática religiosa institucionalizada se não há um dos principais elementos-guia desse processo que é o sacerdote, ou o arconte-basileus/heiroi no nosso caso ? 

A questão precisa ser analisada e repensada, fundamentalmente em sua estrutura.

Antes de mais nada é preciso levarmos em consideração que no Brasil não somos um grupo institucionalizado, o que é algo que tenho repetido muito para possamos nos diferenciar de casos estrangeiros onde há particularidades legais e históricas, além de estruturais que propiciam este tipo de coisa. Verdade seja dita, para que haja esse tipo de coisa é preciso uma certa proximidade, e mais que isso pessoas qualificadas para exercer tais funções. Uma instituição não se mantém por boa vontade dos deuses, é preciso investimento por parte dos membros que a compõe, e no Brasil já temos um certo histórico de charlatanice que nos deixa de olhos em suspenso para esse tipo de coisa, e de fato, sempre haverá alguém para se aproveitar da fé inocente de um ou outro indivíduo.  

Temos pessoas qualificadas, sim, sem dúvida! Mas há interesse em exercer esse tipo de função num contexto social além do seu conhecimento? Essa é uma questão que também precisa ser considerada. Querendo ou não o cargo de sacerdote impõe  algumas qualidades que fazem o seu status, e com tais qualidades há bônus e encargos. Retaliações, desrespeito, injúrias já são comuns para sacerdotes de todas as religiões por parte de seus opositores, no caso das religiões étnicas não deixa de ser diferente. E aqui voltamos novamente a questão da charlatanice e dos recursos para manter tal instituição. O sacerdócio não deixa de ser um ofício, e como tal, é justo que tal sacerdote seja pago por isso,a final, ele também atende por demandas. Quem arcará com tais custos ? Como reconhecer a legitimidade de tal profissão ? 

NIKASSIOS, (O Clero no Reconstrucionismo Helênico, 2007), aponta que uma das solução para o reconhecimento da legitimidade de tal classe no Hellenismos seria a criação de uma espécie de Colégio de Formação de Sacerdotes, mas para que tal caímos novamente na questão do financiamento. Porém, além do lado material , há outra esfera problemática para o reconhecimento e intitucionalização dos cultos, que é a esfera jurídica.

A Constituição Brasileira no seu artigo V, parágrafo VI diz: "É inviolável a liberdade de consciência e de crença sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias." Em termos práticos isso implica dizer que qualquer pessoa tem direito de exercer a sua fé, seja ela qual seja, sendo assim, se você acredita em um deus monoteísta, numa diversidade de deuses, em um casal de deuses (duoteísta), em nenhum deus, ou que deus seria o Mestre dos Magos, da Caverna do Dragão, você tem tanto direito de culto quanto as demais opções, mas fato é que cada organização religiosa tem um corpo ritual que lhe é próprio, e tais rituais religiosos não podem estar acima da lei maior que é a constituição. No parágrafo VIII do mesmo artigo a Constituição menciona que "ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei." Mas sabemos que não é assim. O direito de expressão da sua fé acaba onde começa o meu, ou onde arbitram leis superiores (não divinas, mas de importância maior para o Estado, como o Código de Direito Civil, ou Pena, e a própria Constituição). Tomemos um exemplo: na umbanda é comum nos ritos religiosos o sacrifício animal, o que pode ser visto por alguns como uma violação das leis ambientais em alguns casos como por exemplo o sacrifício de tartarugas em ritos específicos. Mas a constituição garante a lieberdade de culto, e aí?

No caso do Hellenismos esse problema de coerência rito-legislação não é tão recorerrente posto que já há um certo concenso entre os organismos institucionais ou não no que tange ao respeito às leis de cada nação; além do que há outras alternativas que podem, com coerência e criatividade, serem incorporadas como substituição. Fato é que temos uma estutura legal que em muito pode ser parecer ilusória; o Brasil é supostamente um país laico, porém não é bem assim que as coisas são na prática devido à convenções  socialmente impostas e que de certa forma geram um impacto positivo na economia e que dificilmente serão deixados de lado, como é o caso dos feriados nacionais de cunho religioso (Páscoa, Dia de Nossa Senhora Aparecida); porém, há outras questões que também precisam ser repensadas e que essas sim, podem ser corrigidas, como o caso da ostentação de símbolos religiosos em locais públicos e o ensino de Formação Religiosa nas escolas públicas, que mesmo não sendo obrigatório ainda está inserido no currículo (por mais que esta contemple a diversidade religiosa; penso que cabe a cada indivíduo buscar informações sobre uma prática religiosa que lhe interesse, posto que por mais que se defenda uma suposta 'diversidade' ela nunca será atingida em seu âmbito total, dados o ressuurgimento e revivalismo de religiões étnicas, como a nossa, e a corrente de proliferação de novas entidades religiosas novas a todo instante).

Voltemos ao sacerdócio! Fica exposto que nas condições em que vivemos e sob as quais atuamos, uma estrutura clerical, por mais necessária que seja, precisa ser muito bem repensada, estruturada e elaborada,e isso levará algum tempo. A solução mais viável, creio eu, é a continuidade dos pequenos grupos de prática e estudo em permanente comunicação com os demais para que seja assim viável a manutenção de uma comunidade politeísta helênica brasileira. Em suas práticas pessois cada grupo pode eleger para um um representante ritual, uma espécie de sacerdote para aquele momento, o que é até natural e comum, consciente ou inconscientemente, deixando claro que para o resto da comunidade esse sacerdote não ocupará as funções que ele desempenha em seu grupo, será mais um membro, mais ativo ou relevante, não vem ao caso, da nossa ágora. 

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Recomendações


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Corpo Mítico e Ritual

Se há uma coisa pela qual a civilização grega antiga é recordada e dita memorável é pelo seu corpo mítico. O mito é uma constante não só na vida cultural, mas também na vida política e religiosa dos povos gregos. No contexto reconstrucionista essa ferramenta não foge a regra e é um importante e instrumento de conhecimento e pesquisa. É no mito que são narradas as principais informações que temos sobre os deuses, seus aspectos, peculiaridades e culto. Porém, é preciso salientar conforma explica KERÉNY (2005) que nem todo mito é de esfera religiosa.

Além de seu uso religioso o mito também tinha um campo de atuação social e educativa. O mito poderia ser usado não só para ensinar sobre os deuses, mas também por conseqüência ensinar sobre a ordem da cidade, as funções de cada classe social, normas de comportamento e conduta, valores, o porquê das coisas. Em sua essência a palavra mito vem de mýthos, que pode ser traduzido como ‘verdade’. Sendo assim, o mito é a explicação para uma coisa de acordo com o conhecimento do homem sobre aquele determinado objeto.

Muitos dos festivais têm mitos que lhe são relacionados, ou de onde pode-se retirar uma nítida analogia. Mas nem sempre é o mito que dá origem à festividade. BURKERT analisando alguns contextos afirma que quase sempre é o rito em si que dá origem ao mito. Porém discutir esse velho questionamento de “quem veio primeiro:o ovo ou a galinha?”, ou no nosso caso, o mito e o rito, não leva alugar algum nessa reflexão sobre o papel do mito no campo religioso helênico. Pode-se fazer uma observação mais próxima e dizer que cada caso é único, ou simplesmente considerar que mito e rito são aspectos que dialogam e confluem no contexto religioso, sem qualquer dúvida.

Porém não podemos considerar o mito como única fonte de informação e tampouco considerá-lo como a forma mais isenta de informação sobre os deuses ou sobre os rituais religiosos. É bastante freqüente que haja mais de uma versão para um mesmo rito de acordo com a intenção daquele que o conta, nem por isso uma versão ou outra deixa de ser possível ou errônea. Isso pode ser nitidamente observado analizando o mito de Dioniso. Algumas versões dão-Lhe por mãe a princesa Sêmele, em outras versões a mãe é Persephone, unida a Zeus em forma de serpente, e em outros versões a Sua mãe também é dita como Deméter. É preciso considerar que no cenário mitológico os deuses têm aspectos que lhe são propícios, muitas vezes funcionando como símbolos para um simbolismo que é comum à sociedade, mais ou menos num sistema metonímico onde se troca o significado pelo significante. Então assim Deméter passa a ser símbolo para um determinado aspecto da vida e da natureza e Dioniso passa a ser interpretado como filho desse aspecto. Essas construções de significados podem parecer controversas, mas é preciso que se tome como parâmetro sempre o que sabemos a respeito do pensamento da época e não o pensamento ou o contexto atual.

“A religião está naquilo que se faz, não no que se diz” ( NIKASIOS, 2008) e no contexto da religião e religiosidade helênica, onde não há dogmas isso se faz mais presente ainda. A Odisséia, a Ilíada ou os Hinos Homéricos e Órficos são obras literárias que em muito contribuem para o conhecimento dos deuses, mas não devem ser tomadas como uma espécie de testamento dos deuses sobre o seu culto ou exercício religioso. São sim fontes de informação que em muito contribui para o conhecimento a cerca da teologia e cosmologia gregas, mas não devem ser tomadas como verdades únicas e invioláveis. Além deles há outras informações, como os registros pictóricos, papiros e outras informações frutos de pesquisas e investigações que também devem ser consideradas e respeitadas, ainda mais quando consideramos que um rito ou mito pode ser contado ou festejado de formas diferentes em uma polis ou outra.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ritual de Consagração de uma Imagem para Culto



Então você conseguiu uma imagem pra colocar no seu altar?! Ótimo. Mas precisamos saber que uma imgem por si não é uma imagem de culto. O que diferencia uma representação dos deuses de uma imagem de culto é o status de consagração que lhe conferimos por meio de rituais específicos. Na antiguidade haviam rituais específicos para isso. Alguns mais simples, outros mais sigilosos e escabrosos, mas cada um com seu sentido e adequado às necessidades dos povos  que as utilizava. Exemplo: em algusn tiásoi da Beócia, onde Dioniso era cultuado, as imagens eram feitas em lenho de figueira e consagrado com sangue do bode que lhe era oferecido em sacrifício.
Certamento por um motivo ou dois nos dias de hoje isso não é tão viável ou coerente com as leis e princípios ambientais. Felizmente tenho por recurso a analogia, e podemos trocar os símbolos do ritual, lhe preservando o simbolismo, que é mais importante.

A seguir sugerimos um ritual bem simples para consagração de uma imagem pra culto.

Observações Prévias:

1 - A imagem deve estar totalmente pronta e limpa antes da cerimônia; sendo assim se for pintada já deve estar pintado, com o seu nome e eventualmente roupa e/ou acesórios (devidamente consagrados também).

2 - Como em todo ritual a ortopraxia exige a purificação e o uso de roupas limpas. A purificação pode ser feita com banhos de ervas, fonte ou mar.

O Ritual:

- Acenda a vela e a consagre recitanto o Hino Homérico a Héstia

- Consagre o espaço com água lustral: pegue um ramo  de louro ou arruda, queime na chama e com ele aspergir a água no espaço da celebração.

- Acenda o incenso

- Recite um Hino ao Deus a quem a imagem é dedicada

- A seguir a imagem pode ser untada com um óleo aromático dedicado a esse deus (amêndoas para Zeus, azeite para Athena, Rosas para Afrodite e assim por diante; caso não consiga elaborar uma relação para o deus em questão, pode-se usar o azeite mesmo).

- Faça a consagração da imagem por meio de uma declaração. Exemplo de consagração de uma imagem à Athena: " Oh Tu Ergane, de olhos verde-mar, conduzindo os heróis, Sempre amiga dos homens fortes e virtuosos. Eu que sempre canto teu nome e te ofereço líquidos e ofertas vem até mim. Isto é para Ti e em tua homenagem, deus de Olhos Terríveis, Filha do Zeus Porta-Égide. Oh Athena, preenche este ambiente com tua presença!"

- Verta uma libação, queime ofertas e faça preces, à sua vontade.

- Faça uma prece e libação final e encerre o ritual como de costume.



Obs.:

1 - A imagem de ilustração faz parte da celebração da Thargelia no YSEE
2 - O ritual pode ser adaptado pra consagração de outros objetos de culto,como cadernos de registro, utensílios de ritual e oráculos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Danças Folclóricas Gregas

A dança é uma das principais formas de expressão dos Gregos, é uma atividade comum tanto para mulheres quanto para homens, os gregos dançam por alegria, por tristeza, dor, amor, paixão, prazer, enfim, na Grécia há sempre um bom motivo para dançar! Temos aqui alguns exemplos de danças  gregas, somente alguns pois seria impossível relacionar todas elas: Hassápiko, Hassaposérviko,  Syrto Kalamatianô, Tsámiko, Sirtaki, Zeibekiko, Ballo e Tsifteteli.

BALLO


Ballo é proveniente da região do mar Egeu e dançada por todos, pois é muito simples, suas melodias são  alegres e assim como o Kalamatianô são sempre dançadas em festas de noivados. Pode ser dançada  em casais ou em roda e permite improvisações.



HASSÁPIKO


Hassápiko (hassápis = “açougueiro”, em turco), é uma dança relativamente moderna e muito popular na Grécia. Suas músicas tem uma melodia romântica, e é dançada em todo o país, principalmente em tavernas.
As pessoas ficam lado a lado e mantém as mãos sobre os ombros umas das outras, o passo básico é uma seqüência alternada de movimento das pernas, havendo entre os passos básicos variações diversas.

Syrtaki (Zorba) Começa com um Hassápiko bem lento, os passos então vão ficando cada vez mais rápidos e a dança acaba transformando-se em Hassaposérviko. Todos em roda, com as mãos nos ombros uns dos
outros, alternam chutes para esquerda e para a direita. Essa dança tornou-se mundialmente conhecida,
pois a música "Zorba" escrita por Mikis Theodorakis, foi tema do filme "Zorba o Grego".

KALAMATIANO


Kalamatiano é uma dança muito popular na Grécia, é a mais conhecida entre as variações do Syrto, e é  sempre dançada em festas de noivados e casamentos, são rodas abertas, onde as pessoas dão as  mãos e andam no sentido anti-horário com o ritmo forte, o primeiro da fila faz algumas "figuras", como:  dar voltas, fazer túnel e até saltos.





TSAMIKO


Tsâmiko é a dança dos antigos guerreiros, onde eles demostravam sua energia e performance através de saltos. Normalmente os homens é que dançam e a roupa típica associada a essa dança é o Tsoliá  (a roupa do soldado grego).






ZEIBEKIKO

Zeibekiko é uma dança muito comum, não só na Grécia, mas em todos os países com grande concentração de gregos. O Zeibekiko é uma dança individual e antigamente somente os homens a dançavam. Quando alguém se levanta para dançar um Zeibekiko, normalmente as pessoas fazem uma roda em sua volta e ficam  de joelhos batendo palmas, o importante é, ninguém entrar na dança de ninguém, apenas se for convidado.
É realmente uma dança individual e não tem passos certos, dependem da criatividade e da mobilidade  do dançarino, muitos utilizam em suas performances copos, cadeiras, mesas, chegam até a carregá-las com os dentes.


TSIFTETELI


A dança é na verdade proveniente da Turquia e sofreu diversas variações até se transformar no Tsifteteli.  Pode ser dançado sozinho ou em casais, os movimentos dos membros superiores lembram muito a dança  do ventre, porém os membros inferiores tem movimentos mais marcados no tempo e são bem mais simples  do que na dança turca, é comum na Grécia as mulheres subirem em cima das mesas para dançar o Tsifteteli. Atualmente muitas pessoas a confundem com a dança do ventre






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Complexo de Hipólito


Me incomoda bastante essa idéia que algumas pessoas recém chegadas ao Hellenismos têm de ver os deuses como possibilidades de escolhas. Aquela impressão que eles têm de que precisam escolher um deus macho, uma deusa fêmea e após isso está tudo pronto. Como já disse em outros ensaios, a coisa não é bem assim.

Dentro do contexto das diversas religiões neopagãs contemporâneas e as religiões históricas reconstrucionistas podemos observar que há diversas linhas de concepção teológica. Há as linhas duoteístas, como no caso do Zoroastrismo persa  e da Wicca contemporânea, há as monoteístas, via de regra vinculadas à tendências ocultistas ou espiritualistas e há linhas politeistas, como no caso do Hellenismos.

Em geral após algum tempo as pessoas acomodam-se no culto de seus deuses paterno e negligenciam a visão e a experiência em outros deuses, o que eu chamo de Síndrome de Hipólito, que eu relembro aqui apenas a título de tornar isto mais compreensível.

Hipólito era filho de Teseu e fora criado com Fedra, sua madrasta. Era verdadeiramente leal à deusa Ártemis, de modo que como tal, conservara-se virgem e casto, desrespeitando as necessidades humanas de amor, presente na figura de Afrodite, chegando até mesmo a desrespeitá-la. Em punição Afrodite fez com que Fedra, sua madrasta, concebesse uma paixão louca por ele, no qual teve a empregada do palácio como sua cúmplice. Mas não teve sucesso em sua tentativa de seduzir o jovem, leal que era ao seu voto de castidade. Repelida, Fedra acusou Hipólito junto ao pai de tentar seduzi-la. Hipólito fugiu montado em sua biga. Teseu baniu da casa o filho e pediu a Posídon que que fizesse o filho perecer. Atendend-o, Posídon mandou contra Hipólito um montra marinho que espantou os cavalos de seu carro e o moço morreu despedaçado. Fedra enforcou-se de remorso.



Não quero sugerir com isso que todos devam cultuar a todos os deuses do panteão, porque afinal de contas isso também seria uma forma de insolênia, hýbris, desrespeito. Não se pode dizer, como no hábito cristão, mesmo que falsamente, que "amamos os próximos como a nós mesmos". Evidente que cada um terá deuses com os quais é mais próximo, e se sente reconhecido e agraciado pelo favor do deus, mas não se pode negligenciar a ação e a celebração em favor dos demais. Falar para um decsonhecido e para um amigo de longa data que você ama aos dois de igual maneira soa como um desrespeito e total desconsideração.

Apesar de distintos, os deuses têm uma natureza complementar. Com suas virtudes e vícios, podem ensinar sobre a vida um fato que aparentemente não pode ser bem entendido na figura de um outro. Sendo assim, podemos entender sobre a métis de Atena enquanto estudamos sobre a placidez de Apolo ou celebramos o entusiamo dionisíaco.  É preciso considerar os deuses não como formas arquetípicas ou objetos em especial. distantes do nosso plano de ação e experiência. Eles estãõ tão ou mais próximos da vida em si quanto nós. São seres reais e partes da vida que é o todo.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Festejando a Thargelia



O Thargelia em suma é um festival de dois dias, onde há purificação e sacrifícios dos primeiros frutos da estação. O primeiro dia, o seis de thargelion, celebra o aniversário de Ártemis, gêmea de Apolo e também promove a purificação da comunidade e dos indivíduos do miasma. O segundo dia celebra o aniversário d'Ele e a entrega dos primeiros frutos da estação. Porém, o festival tem uma particularidade. Ele começa antes mesmo do ínico, com a contrução daquilo que é denominado de pharmakós.


O pharmakos na antigiguidade constituia de um bode expiatória, um representante da comunidade ,preferencialmente sem quaisquer atributos físicos. Hoje, como é quase consenço de todos os reconstrucionistas serem particantes isolados pode-se optar pela construção de uma kolosso, uma espécie de boneca voodo utilizada na antiguidade para fins apotropáicos. O Pharmakos neste sentido pode ser construído com qualquer material inflamável: tecido, papel, papel machê, plástico, enfim.... dentro do pharmakos pode ser depoistado elementos pessoais que o represente como indivíduo, tais como unhas, cabelo, fluídos... O pharmakos deve ser levado consigo durante algum tempo a fim de que ele possa absorver todos os traços negativos. Ele é aparentemten bem tratado, porém não se deve estabelecer vínculos emocionais com ele. Os homens têm seu pharmakos com um colar figos pretos e as mulheres com figos brancos, porém também se pode usar bulbos de cebola. Outra alternativa é usar miçangas de bijuteria, caso não seja possível ter os figos ou cebolas no colar. Durante a semana ou dia o pharmakos é castigado com "chicoteadas" feitas com ramos de figo e bulbos de cebola. A procisão até o local de realização do festival caminha no mesmo ritmo, com a flagelação do pharmakos. Durante o primeiro dia ocorro a purificação do Pharmakos. Como nesse dia comemoramos também o aniversário de nascimento de Ártemis pode-se ofertar flores e bolos no altar dedicado à Ela e fazer libações de leite e mel, celebrando o mito de seu nascimento e epifania. A seguir ocorro a purificação do pharmakos propriamente dita. Pode-se acender algo como uma fogueira ou vela na qual o Pharmakos será queimado. Enquanto isso pode-se cantar um Hino ou poesia à Apolo e Ártemis, meditando na purificação daqueles miasmas que se depositou no pharmakos, assumindo assim um compromisso consigo e com o deus de evolução. Seguido isso, o ritual segue com a comemoração, onde pode-se dançar em honra ao nascimento da Deusa, ou relembrar, ou recontar o mito de seu nascimento na Ilha de Delos, conforme nos conta Hesíodo.

Durante o segundo dia ocorre a oferta dos grãos. É nesse dia que se comemora também o aniversário de Apolo. É também nesse dia que se faz o thargelos, a papa ou pão de cereais típica desse festival. O targelos pode ser feito com grãos de milho cozidos e outros vegetais também podem ser adicionados. Seguindo as guias gerais do dia anterior, pode-se cantar o Hino Órfico a Apolo, ofertar milho e outros cereais a Ele e a Deméter, bem como fazer libações de mel, óleos e azeite. Seguindo isso a comemoração segue com leituras de oráculos, meditação, exercícios físicos e/ou competições esportivas, quando possível.

As atividades sociais não são esquecidas. Pode-se em comemoração ao festival fazer doações de comida a instituições filantrópicas com fins semelhantes a alimentar sem tetos e afins. visitar orfanatos e participar de ativades envolvendo as crianças, contando-lhes histórias por exemplo...