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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Theoi Ktesioi (1)

Por alguns momentos já mostrei aqui no blog meu descontentamento quando percebo em alguns adeptos do Helenismo a redução de toda a religião e do culto em torno dos festivais. Os festivais são momentos de ápice, são uma espécie de encontro marcado, mas, apesar de sua centralidade e importância, não podem expressar toda a riqueza da experiência religiosa helênica. Há uma série de outros aspectos e facetas do culto que o devoto deve investir, a exemplo da atenção aos daemons do lugar onde vive, o culto dos deuses domésticos, bem como aos heróis e ancestrais, e outras  instâncias mais (algumas deveras problemáticas para os praticantes modernos) que não cabem ser mencionadas nesse pequeno texto, que pretende mais ser um retomar as atividades do blog do que propriamente dissertar. 

Assim, resolvo postar aqui algumas fotos de um ponto que venho investindo muito ultimamente que é o culto aos theoi ktesioi, os deuses protetores da casa, ou deuses domésticos, como queiram. As imagens são alguns pequenos altares e monumentos que no espaço da minha casa venho construindo para tais deuses (Zeus, Héstia, Hécate, Hermes, Hérakles, e os gêmeos Castor e Polideuces) para o culto especialmente nesse aspecto. 



Hécate e Hermes são os deuses condutores, senhor e senhora dos caminhos. Traducionalmente sues monumentos domésticos são apresentados no jardim da frente da casa. Como minha casa não dispõe desse espaço, resolvi trazê-los para o jardim dos fundos, depositando seus monumentos na parede onde tenho algumas plantas e onde estou erguendo uma herma. Para a entrada da casa estou preparando uma pequena tábula com os nomes de ambos.

Aqui a herma que estou iniciando a erguer e uma pequena oferta a Hécate.


Aqui um pequeno memorial para Hérakles que venho dispondo no corredor frente à porta principal de minha casa. Os dizeres "Aqui, Hérakles triunfante e glorioso reina. Aqui o mal não é permitido entrar" era comum como forma de proteção e foi encontrada em vestígios de muitas casas atenienses, em geral atrás das portas.

E por fim, a chama de Héstia que fica no altar central do lar. Além dessa também há o altar para Zeus e Héstia na cozinha, o qual pretendo mostrar numa próxima ocasião.


Eirene theoi.
Th!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sobre os deuses

Após algum (longo) tempo afastando do BlogUniverso, estou de volta e para reaquecer as ciosas, apresento a todos os leitores um vídeo produzido pelo grupo YSEE, que certamente os leitores em sua maioria já devam conhecer, mas que em todo caso foi o primeiro grupo helênico surgido no início dos anos 2000 durante o fórum mundial de religiões étnicas. O grupo é atualmente a maior entidade social a reunir politeístas helênicas registrados no mundo. 

O vídeo trata-se de uma apresentação sobre os deuses na concepção do politeísmo helênico e eu compartilho com a tradução e algumas adaptações à língua portuguesa que se fizeram necessárias. 


Infelizmente as ferramentas que disponho para legendagem e sincronização não resultaram num bom visual para o vídeo quando inserido o texto em português, razão pela qual opto por transcrever aqui abaixo o texto que compõe o vídeo. 


1. O termo  politeísmo  é derivada de duas palavras gregas: poli (muitos) e theos (deus) e  significa “devoção a muitos deuses”.

2. O Politeísmo, portanto, é definido como a crença na existência de muitos deuses.

3. Na ideia de que há muitas potências divinas.

4. É, por fim, a ideia de que a divindade reside em muitos seres ou entidades distintos.

5. Há muitos deuses e deusas.

6. Os deuses seres grandiosos e poderosos; justos e sábios.

7. São imortais; dignos de respeito e adoração

8. Eles têm muitas formas e podem revelar-se por muitos meios.

9. São igualmente imanentes e transcendentes.  Estão presentes nos elementos e nas formas de vida.

10. Estão manifestos nas forças da natureza, na matéria e na energia, mas também  são transcendentes e não se restringem em qualquer forma material.

11. Os deuses podem revelar a si mesmos como  humanos ou outros seres como  plantas, animais, ou objetos materiais.

12. Não há limite de forma para os deuses. Eles são o que escolhem ser.

13.A divindade é múltipla e variada, tanto em aparência quando em realidade.

14.Nenhum deus ou deusa se esconde atrás dessa multiplicidade de formas divinas.

15.Os deuses e deusas são entidades objetivamente reais, cuja existência não está sujeita à crença ou ações de seres menores.

16. Eles não são arquétipos ou símbolos imaginários das atividades ou mente  humanas.

17. Não são representações simbólicas dos eventos e processos naturais.

18. Eles, deuses e deusas, são reais.

19.Eles existem.

20. Sua sabedoria e poder tomam forma neste mundo, a esta forma de cosmos.

21. Sua beleza e graça duram para sempre.

22. São seres livres e independentes.

23.São igualmente divinos. Não são controlados por outras potências ou entidades.

24. Os deuses e deusas satisfazem-se quando seres menores livremente reconhecem sua existência e lhes dão respeito e devoção...

25. ... embora não precisem desse tipo de reconhecimento.

26. Eles não precisam de nada.

27. Eles simplesmente criam tudo que desejam...

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mounykhia

A Mounikhia é o festival que dá nome ao mês de Mounikhion, supostamente por ser dentro deste mês o festival de teor mais significativo para grande parte dos gregos antigos particularmente da região do Esparta, Atenas e Beócia, de onde se tem mais registros.

O festival é caracterizado pelo culto de Ártemis como deusa da Lua e Senhora dos Animais (Potnia Theron), e também em honra do herói Mounykhos. Conformo diz Suidas, Mounikhos era governante da cidade de Mounikhos, onde lá tinha seus promontórios. A cidade passava por um momento de crise, até que uma ursa apareceu e tomada pela voz da Deusa, disse aos atenienses o modo de acabar com a fome: era preciso que uma das meninas da aldeia fosse sacrificada à deusa. Ninguém se havia comprometido em fazer tal ato, até que Baros se ofereceu para tal serviço, justificando que sua família detinha as obrigações do sacerdócio. Então ele vestiu a filha e adornou-a, levando-a para o temenos e escondendo-a lá; feito isso vestiu uma cabra com as mesmas roupas e adornos e a sacrificou, como simulacro.  Suidas também mencionar que Mounikhyon era um monte em Athenas que era usado nos sacrifícios em honra de Ártemis Mounykhia.

Esse mito justifica grande parte das atividades desenvolvidas no festival no seu contexto antigo, em especial as encenações de meninas vestidas de saias para dançar da dança das ursas e o sacirfício da cabra para Ártemis Mounykhia.

O festival era aberto com uma procissão, como de costume na maioria dos festivais gregos. Não há registros exatos sobre como se procedia essa procissão, mas de modo geral pode-se dizer que os celebrantes faziam o percurso do templo até o local da festividade contarolando hinos e fazendo preces à Ártemis e ao herói local.  Cada pessoa levava consigo uma torta esferóide donde pequenas tochas chamadas 'dadia' eram afixadas, que seria posteriormente ofertadas à Ártemis como deusa da Lua. A estas tortas chamavam amphiphonte, que poderia ser traduzido como 'aquilo que brilha dos dois lados', que pode ser entendido por dois aspectos: o primeiro é a menção antiga de que as ofertas eram feitas quando o sol e a lua estavam ambos visíveis, e a segunda possibilidade pode ser que as dadia signifiquem o nascer e o pôr da lua.  Após isso é feito o sacrifício da cabra, notadamente uma cabra fêmea, reencenando o mito original de Baros, e dão-se início aos jogos e festividades, donde a principal competição é o da dança das meninas-urso, as Arktoi, jovens meninas que dançam vestidas em roupas curtas de cor açafrão, reencenando a dança dos ursos em homenagem à Ártemis e ao urso que profetizou a forma de acabar com a fome em Mounikhia.

Adaptando o festival aos dias de hora, podemos fazer ofertas e libações para Ártemis, recitando poemas pessoais ou hinos para Ela. Não havendo possibilidade de fazermos as tortas, podemos usar biscoito, pães ou bolos em com desenho (em papel de arroz, que é uma possibilidade), ou formato de cabra.  Outra possibilidade é você se engajar em atividades relaciondas à festividade, como presentear crianças, visitar um orfanato... as possibilidades são muitas. O festival também é uma oportunidade para você começar a praticar esportes, ou repensar no sentido do heroísmo e de quem são seus ídolos e herói no mundo de hoje. Em todos os casos, as experiências são todas recompensadoras.  Bom festival a todos.

sábado, 10 de outubro de 2009

Negação ou Afirmação ?


Não pela primeira vez sou denunciado por acreditar nos mortos, e viver pelo passado. E é sobre isso que escrevo. Hoje essas denúncias chegaram a um ponto em que estou sendo acusado de negar a vida, pensando afirmá-la, com a crença pela qual opetei. Geralmente não costumo misturar temas especificamente pessoais, em especial minhas opiniões, com temas que tem um interesse geral. Acredito que nesse tipo de caso a melhor coisa a fazer seria expor os fatos como os vejo (afinal de contas, a neutralidade é difícil) e deixar que cada um opte pelo lado ou opinião que melhor lhe convier. Fato é que em situações como essa, onde somos minoria, querendo ou não aquele sentimento de que realmente estamos errados impera frente à  imensa maioria. Mas isso é, penso eu agora, absolutamente redículo.

Vamos aos fatos...  se fizermos um paralelo entre as religiões contemporâneas e a religião grega veremos que na verdade há uma imensa maioria de religiões que têm como foco a negação da vida, frente a poucas correntes de pensamento religioso, entre elas o Politeísmo Helênico, onde a vida é enaltecida e contantemente enobrecida e afirmada.

A religião grega não trabalha com essas possibilidades, ao menos não a religião cívica grega. Não há na religião grega relatos de crença pós-mortem, milagres ou coisas fo gênero. A religião grega afirma a vida, não faz promessas para depois ou constrói suas crenças com base numa moral do mais fraco; a moral grgea crê em valores maiores que a humilhação travestida de humildade: o heroísmo, a métis, a astrúcia , temperadas pela chabris, xênia, eusebia.

A religião grega vê vida e morte entrelaçadas de forma que uma não pode existir sem a outra. Os portais entre um mundo e outro existem, mas ocilam de tal forma que sempre se pode ver uma brecha entre a vida e a morte. Já os deueses sempre flutuam entre as esferas do humano e do divino. São "abrotoi", os de vida perpétua... 

A vida é sempre a essência da prática social, cultural e religiosa. Não se nega ou se foge da vida. A moral e todos os aspectos da civilização grega apontam para a experiência e para o engrentamente desse imenso "agon  kharismático".

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O fogo como instrumento mantiko

Mantika é como chamamos via de regra toda forma de oráculo, e mantikoi a pessoa especializada nesse instrumento. Na antiga Grécia esse era um dos momentos de maior importância, pois, segundo Platão, era no sacrifício e nos jogos de advinhação que os deuses estavam mais próximos e íntimos dos homens. Os mais diversos tipos de advinhação e oráculos eram utilizados na Antiga Héllas, desde os mais institucionalizados, como Delfos, Dídima e Éfira, aqui três tipos bem distintos, até aqueles mais simples e objetivos, como o oráculo de seixos de Hermes, o alfabético de Apolo, os sonhos, as juntas de ossos...
Podemos traçar uma linha geral de como esses rituais ocorria. Em geral, os mais institucionalizados exigiam rituais de purificação, que poderiam ser desde os banhos de mar, khernips ou  outros meios; isto era seguido por um sacrifício ou oferta, e logo depois o consulente apresenta-se com uma prece pedindo aos deuses que lhe permitam ver aquilo que a moirá planeja. É sempre bom lembrar que os oráculos são fatídicos, eles mostram as possibilidades para que algo acontece, vez por outra determinam o que pode acontecer, mas isso é sempre o desfecho de um ciclo de ações. Sempre é possívelm, através da postura adequada, refazer a situação descrita, mesmo porque se observarmos com cuidado, apesar de não serem os mais famosos, a maioria dos instrumentos mantikos era de aconselhamento e não de previsão propriamente.
Nos ritos de Eleusis, uma cerimônia muito importante das celebrações era a leitura da sorte na chama da tocha. As indicações que seguem abaixo são uma releitura a respeito do que sabemos sobre essa técnica.
* Antes de começar, a purificação é sempre exigida. Não é de bom tom apresentar-se aos deuses sujo. Em caso de uma consulta rápida, o simples lavar das mãos, rosto e pés pode resolver. Mas, se possível o ritual completo é o mais indicado sempre, seja qual rito for.
* Prepare o material a ser utilizado. No caso do fogo, o ideal é um local fechado e com pouca iluminação. Caso a fonte de fogo utilizada seja maior, como fogueira ou braseiros, locais abertos. O fogo deve ser livre de máculas. Sendo assim, use uma vela virgem e pura, da cor relacionada com a deidade, ou se for fogeuira, uma madeira de lei, e  nas brasas carvão legal. Era costume temperar o fogo com ervas, a fim de chamar a atenção dos deuses com o perfume das fumaças. Asssim , você pode colocar as mais diversas ervas,  porém é importante observar para que haja uma relação de coerência entre aquilo que vai-se colocar no fogo e o deus em questão. Você pode colocar açafrão para Ártemis, louro para Apolo, murta para Afrodite, folhas de hera para Dioniso, figo para Hera e carvalho para Zeus...  Também é importante zelar pela limpeza e adequação do local. Prepare o altar com ofertas e líquidos, além das imagens.
Quando começar o ritual, faça primeiro as ofertas, libações e sacrifícios, sempre acompanhados de hinos e preces. A etiqueta ritual preza pela honra daquele que está pedindo, sendo assim, não é elegante pedir alguma coisa, por mais que seja um conselhor, sem ofertar nada em troca. E caso não tenha nada preparado para ofertar no momento, prometa retribuir asim que possível , e evidentemente cumpra com suas promessas.
A divinação pelo fogo é feita através dos sinais. Faça uma invocação das divindades que lhe servirão de guia. Em geral , todos os deuses têm oráculos relacionados a si, alguns são mais desenvolvidos, como Dioniso, Apollon, Hermes e diversos Heróis, outros mais recatados. As linhas dadas aqui sugere um ritual onde o fogo é recomendado pelas Duas Deusas (Deméter e Perséphone). O primeiro passo após o que foi dito acim aé o chamamento. Diga algo do tipo :
" Oh Deméter, sempre verde, a distribuir dádivas entre os homens
assim como nos palácios de Eleusis concebias planos
de grandeza absoluta, possas Tu, Senhora, me ser favorável
e pelos olhos de Hélio que tudo vê e te indicas a direção adequada
para chegar à Tua filha, a sempre jovem Koré,
me mostrar aquilo que é possível sobre (aqui você insere de forma objetiva a questão)"
Os sinais do fogo são bem nítidos quando o local é fechado. A chama baixa sugere uma resposta negativa, a chama elevada uma positividade. A chama inerte uma posição que deve ser repensada e o extinção da chama um mal presságio para a situação.
Uma coisa importante e que deve ser observada é manter um distanciamente pessoal entre você e a situação, afim de que suas intensões não intervenham na questão. É por isso que muitas vezes se aconselha que não se faça auto-consultas em determinados tipos de oráculos.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Adônia



A Adônia é um dos poucos festivais que tem uma relação direta com o público masculino. É preciso que reconheçamos que enquanto os homens dominavam a maior parte da vida social em geral na Grécia Antiga, cabia às mulheres as responsabilidade pela maioria dos cultos, ritos e festivais em geral. Na antiguidade esse poderia ser entendido como um aspecto complementar dos cultos heróicos. Enquanto a maioria destes louvava os aspectos guerreiros e a transição para a puberdade, o culto de Adônis revela uma faceta mais sutil, relacionada à formação social do menino.
O mito que envolve toda a aura do festival é o da morte do mesmo herói que dá nome ao festival, Adônis. A vida de Adônis e seu fim prematuro eram objeto de um culto intenso na Grécia. No dia dedicado para comemorar-Lhe a morte, deitava-se Adônis morto num leito de prata recoberto de púrpura. Gritavam e soluçavam as mulheres, protegidas por uma abobada de folhagens, a carpi o corpo do jovem deus-herói. As oferendas eram frutos, perfumes, folhagens em cestas de prata. Atiravam-no no outro dia ao mar e então ecoavam cantos alegres,pois Adônis com as chuvas da próxima estação ressucitaria. Essa imagem ressalta o papel dele nos cultos como filho de Afrodite e como imagem da breve eclosão da primavera. Em Biblos passava um rio chamado Adônis que no dia do festival de sua morte ficava vermelho cor de sangue. Na Síria a festa era celebrada na entrada da primavera. Plantavam-se em vasos e caixas sementes que molhavam todos os dias com água morna, para faze-las germinar mais depressa. As plantas assim obtidas chamavam-se plantas do ‘jardim de Adônis’. Morriam logo depois de nascer.
Hoje podemos festejar essa data relembrando os mitos que as envolvem e fazendo ofertas às deusas Geia, Afrodite e Perséfone, além do homenageado, é claro. A seguir algumas instruções que creio que serão válidas

1- Purifique-se por meio de um banho. Prepare o altar contendo imagens de Adônis e Afrodite, principalmente. Outros deuses podem ser acrescentados, tais como Perséfone e Geia. Separe roupas limpas para a celebração.

2- Faça a dedicação de tudo aquilo que será ofertado e/ou libado. Isso pode ser feito com a fumigação de incensos sobre as ofertas e uma espécie de dedicação como “aos deuses o que Lhes é devidos’. Pode-se ofertar rosas brancas para Adônis, além de perfumes, vasos de rosas repletos de folhas aromáticas, além das anêmonas, se possível. Para Afrodite: rosas, espelhos, bijuterias, perfumes, frutas – romã e maçãs. Os líquidos para serem libados podem ser orvalho, água de fonte, leite e mel.

3- Purifique o altar com óleo, leite ou essência de rosas. Acenda a chama do altar e por alguns instantes medite no significado da data e nos deuses que serão honrados. Cante o primeiro hino.à Héstia e Geia:

Toda-Fértil e Toda-Destruidora Gaia, Mãe de Tudo, que traz generosos frutos e flores, Toda variedade, Donzela que ancora no mundo eterno sozinha, Imortal, Abençoada, coroada com toda a graça, Profundo florescer da Terra, doces planíces e campos, gramas aromáticas nas chuvas que nutrem. Em torno de ti voam as belas estrelas, eternas e divinas; Venha, Abençoada Deusa, e ouça as preces de Teus Filhos, faça os frutos e grãos crescerem em teu constante cuidado, e que com as estações férteis tuas criadas se aproximem e abençoem teus suplicantes
- Hino Órfico à Géia, com olíbano

Héstia, tu que cuidas da sagrada casa do senhor Apolo, o que atira longe ao enorme Pytho, com suave óleo escorrendo sempre de suas madeixas, venha agora a esta casa, venha, tendo uma só mente com Zeus o onisciente -- venha para perto, e sobretudo conceda suas graças sobre a minha canção

-Hino Homérico XXIV à Héstia
Eventualmente pode-se fazer alguma oferta a Elas após a primeira libação. Em seguida pode-se cantar hinos para Afrodite, sejam eles antigos, modernos ou composições próprias. As libações são feitas durante o recitar do hino e as ofertas podem ser feitas ao término da libação com uma dedicatória aos deuses como por exemplo: “ Adônis, para Ti, ó Belo, estas rosas”.

4- Ao terminar as libações agradecer a presença dos deuses em uma saudação do tipo: ‘saúdo os eternos deuses de nossos pais reinterando minha devoção e fé ao sagrado panteão para que todos os pensamentos que compartilhamos hoje sejam enviados e reconhecidos através da Terra. Assim seja”.

Meu poema para o festival, em honra de Adônis:

Hino à Adônis

A fumigação das rosáceas
Libação de suco de rosas e leite


Musa, inspira minha canção
Para que eu cante os amores da Ourania
E de seu filho desditoso,
Amado entre as deuses

Ó Adônis, do hálito floral
Tu, desditoso fosse ao receer da moira tão prematura morte
Mas também tivesses a graça do amor de tua mãe e amadas
A espalhar pela terra as cores da primavera
Apaixonadas, numes de róseos braços
E madeixas graciosas, duas , te dedicaram especial afeto;
A sempre bela Ourania, tua mãe e amada
E a sempre pura Koré, entre os homens venerada
Possa minha canção subir garciosa como os ramos da rosácea florida
E os deuses ouvirem minha canção
E no dia de tua morte cantarão felizes
Promessas para uma nova estação
Oh deusas de belos braços, que eu sempre seja forte
Soberbo e agraciado, pelo vosso sopro e favores
Sempre eternos.
Ó tõn Téoi, ecsfaristo polý



domingo, 24 de maio de 2009

As coisas não são bem assim


Isso mesmo, as coisas não são bem assim. Ao pensarmos no sagrado feminino o usual é aquela instrução costumeiramente wicanna ou qualquer dessas correntes do paganismo contemporâneo que diz-se portador de uma tradição anterior, ao menos é isso que defendem. Mas as coisas não são bem assim. O comum é imaginar as deusas como mulheres ou maternais, ou moças ou senhoras idosas e sábias. De fato, elas podem ser assim. É inegável o amor e zelo de Hera pelo Seu consorte, a doçura de Deméter para com sua filha Koré-Perséphone, ou a beleza de Ártemis a correr pelas campinas e montanhas. Mas o mundo das deusas e dos deuses é todo um complexo, que deve ser entendido, assim como bem aponta o helenista karl Kerényi sem preconceitos. “O autor entende que, se o desejo do estudioso é alcançar os caracteres fundamentais dos mitos, ele deve se desligar dos seus próprios preconceitos o mais que puder. Isso porque, antes, não haverá senão uma correspondência superficial entre o mundo do estudioso e o dos mitos. Ele passará meramente ao status de uma curiosidade, ou seu conteúdo será interpretado de forma degenerada, face seu significado inicial.”
A cultura pop simplificou a imagem dos deuses, já anteriormente fragmentada pelo pseudo-intelectualismo dos escritores da Idade Média e das perseguições contra os povos pagãos. Enfrentar esse universo onde a imagem dos deuses é deturpada ou simplificada é o primeiro desafio àquele que tenta estar próximo do complexo sui generis que é a divindade.
Há uma quarta, quinta, sexta face do divino feminino que muitas vezes é ignorado. E ao se deparar com ele, surge muito naturalmente um desconforto ou estranhamente, típico de quem enxerga os deuses como entidades belas, amplamente benéficas, perfeitas e acolhedoras. E de fato, Eles e Elas são sim, mas as coisas assumem uma dimensão muito maior que essa proposta. Os deuses são bondosos, mas acima de tudo, justos. E, semelhantes a nós, têm suas paixões, vícios, escolhas e tristezas.
Confesso que a primeira vez que me deparei com a imagem de Atena me assustei. Uma deusa de olhos belos, pele rosada e cabelos negros como o ébano, e que logo ao nascer solta um grito de guerra que ecoa por todas as partes do mundo, logo em seguida vestindo-se, toda armada, reluz e fulgura frente a seus tios, pai e irmãos, estarrecidos, frente ao poder daquela deusa, toda virgem e casta... uma deusa Guerreira! Não era a donzela, não era Mãe, tampouco anciã. Era a guerreira, armada com a lança e com a égide. Isso me encanta.
A violência e a competição são forças latentes e indissociáveis para quem deseja compreender o mundo religioso e social grego. Pode parecer egocêntrico, ou exibicionismo, mas o grego sempre se empenha a fim de ser o melhor. Quando falamos em “grego/heleno” sempre estamos nos referindo àquele que opta por partilhar de uma educação moldada por normas éticas e morais baseadas no respeito, na ordem, na tradição e no bem geral da comunidade, bem como de si mesmo.
Mais uma vez vou recorrer à moral judaico-cristã como uma das maiores barreiras para a compreensão do pensamento grego e primitivo (em termos históricos, não “evolucionários”). A moral judaico-cristã moldou o pensamento humano a conceber um sistema de mundo em que os mais frágeis são sempre os mais fortes, os bem aventurados são os retalhados, os pobres e os excluídos. A moral grega vai contra isso. A moral grega funda-se sobre a honra do adepto. O homem oferta o melhor de si, empenha-se em ser o melhor naquilo que efetua, pois assim está contribuindo para o crescimento de seu grupo e também honrando os deuses a quem é devotado. O grego sempre quer ser o melhor.
Penso seriamente que o mundo grego precisa ser visto com olhos despidos de idéias pré-concebidas e de pensamentos formados. Um autor sempre defende uma linha de pensamento, e como tal, é suscetível como todo mortal a “puxar a sardinha” para o seu lado, então, como no contexto do politeísmo helênico, as fontes históricas são as ferramentas mais costumeiras, é sempre bom advertir que nem toda leitura é recomendável, e mesmo aos recomendáveis, cabe por observações, e verificar as fontes de que se servem.
Não se pode conceber um deus como uma simples coisa, a exemplo do que se aprende na escola como “ Afrodite é a deusa do amor, Ares o deus da Guerra, Zeus deus do trovão, Hera do casamento”... tratar as coisas desse modo é desrespeitoso para com um deus. Talvez seja como etiqueta-lo, e sabemos que no real as coisas não são tão claras assim. E um deus é uma realidade concreta, não um arquétipo ou uma entidade imaginária e/ou mágica. Eles também são entidades com poderes destrutivos. São tão complexos quanto qualquer um de nós... mas mesmo assim, ainda são deuses.