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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Tosse e outras metáforas da virtude e da morte

Após certo período de inatividade voltamos a discutir o Hellenismos nas páginas do Ta-Hiera. Sou do partido que acredita que em situações de perigo, ou ameaça a nossa vida, recebemos alguns estímulos e avisos para que nos cuidemos e possamos se não evitar os danos, ao menos reduzí-los. Essa é a perspectiva presente em muitos mitos, todavia neles em geral, os heróis optam por construir seus próprios caminhos e contrariar a Moîra, escolha que geralmente os conduz a catástrofes, mas em compensação, onde eles escrevem seus nomes e seus feitos nas páginas da glória. O que me interessa hoje, todavia, não são esses feitos, mas ao contrário, a forma como nosso corpo-mente responde a esses avisos de forma a sincronizar-se e receber o aviso como uma informação útil.

Estando adoecido nos últimos dias com um tosse demasiado grave, de repete me ative a certas metáforas que nos rondam a nos informam dos riscos aos quais estamos submetidos. As metáforas estão além do aspecto com o qual lidamos costumeiramente; são registros do corpo, do ritmo da vida, do forasteiro inesperado, e eventualmente, da língua em si. Se manifestam numa variedade diversa, do símbolo ao auspício, da mensagem ao silêncio. 

É bem sabido que no mundo helênico os deuses não fazem nada por nós; é Walter Otto quem nos esclarece sobre essa peculiar relação onde o devoto não pode pedir nada aos deuses, pois não é tarefa deles fazer nada por ninguém. No mundo helênico, é a presença a maior das graças concedida ao homem. O reconhecimento de sua nobreza e virtude  dos indivíduos os coloca em condições de estar com os deuses, ter a sua graça, e aí reside o mais sublime elemento dessa relação. Assim, não caberá aos deuses salvar o homem do perigo, mas antes, àqueles a quem eles tendem a ser mais bem quistos têm a vantagem, ou o mérito, de sua palavra como aviso, como dádiva.

Dádiva aqui se entende na própria acepção que lhe atribui o antropólogo Marcell Mauss, essa específica relação de reciprocidade que se organiza na tríade dar-receber-retribuir. As metáforas da vida e as metáforas da morte são os códigos disponíveis com os quais os deuses muitas vezes se manifestam e comunicam-se conosco. Não se trata de uma abstração, o que seria algo em síntese, pequeno; é em suma, acredito eu, um sistema sofisticado de comunicação com o qual muitas vezes, tendo em vista a imaturidade, a pressa, ou o simples desafinamento com aqueles que nos protegem. Os deuses oferecem as pistas para nossa preservação, e simplesmente as ignoramos; julgamos que só somos agraciados quando nossas preces e pedidos são atendidos, mas ignoramos o que Eles deliberadamente nos oferecem. 

Para os gregos antigos, a areté, a virtude, a excelência, é uma capacidade de realizar os feitos nobres. Se refere não apenas às habilidades da mente, ou como eles dizem, a areté do espírito, mas também à areté do corpo. A areté é a habilidade maior da preservação, do cuidado e da manutenção da vida. A areté do corpo e a areté do espírito são uma coisa só porque, para o homem grego, essas instâncias não são separadas. Não há corpo sem espírito, tampouco espírito sem corpo. É nesse ponto que tomo a tosse como metáfora da morte. 

Em um texto anterior onde explorava o lugar do cadáver nos ritos fúnebres coloquei que, para o homem grego, por vezes o corpo era mais importante que o espírito, sendo o espírito que de fato, para esses homens, animado pelo corpo. Revendo essa afirmação, acredito que uma correção seria necessária. Não se trata de uma primazia do corpo sobre o espírito, umas antes um embricamento entre essas instâncias sem a qual uma não pode ser sem que a outra também seja. Assim, como havia dito no parágrafo acima, a areté do homem é a areté da integridade, da excelência , a auto-preservação. 

Psiqué no templo do amor, de Edward J. Poynter

A palavra grega para espírito, grosseiramente resumindo e ignorando o aspecto-espectro maior sobre o qual o tema se desenvolve é psiqué. Psiqué também é o termo usado para respiração, sopro, como também pode ser entendido como borboleta. Ora, essas referências de uma forma muito distinta se comunicam e nos pode dar uma pista sobre as metáforas que venho discutindo. Assim como a borboleta, que passa por um processo de amadurecimento, reclusão, para enfim, alcançar voos mais altos, e "libertar-se", a respiração também é o movimento pelo qual o corpo, como instância articula entre ele mesmo e a mente, toma para si o que há disponível no ambiente externo para desenvolver o que há dentro e fora dele (corpo = lagarta; borboleta = psiqué/ato de respirar). 

Ao adoecer o corpo nitidamente dá sinais de seu processo de violação, e essa é uma concepção anterior ao próprio Hipócrates. A febre, a dor, a tosse, os fluídos como catarro e sangue, são sinais de que o corpo encontra-se ameaçado e precisa ser cuidado. Mais que sinais, entendo esses sintomas como metáforas da vida e da morte, símbolos disponibilizados para nós pelos deuses de que algo danoso está acontecendo, seja por processos naturais que precisamos suavizar, seja por situações de negligência ou violência. A tosse é a saída da psiqué, dessa parte da virtude sem a qual o corpo não funciona, afinal, ambos funcionam como um complexo entrelaçado.

A areté é também a preservação do corpo. O termo romano para este conceito é "virtus" do qual originaram as palavras virtude e virilidade. Virilidade para o romano é justamente o que para os gregos se manifesta na sua excelência, na sua areté do corpo, na força. Todo homem deve estar preparado para a guerra, e nesse prepara-se opera um duplo entendimento de que, se ao mesmo tempo é preciso estar completo e inteiro para a batalha, simultaneamente cada parte do corpo tem sua virtude: a virtude do olho é ver, do ouvido escutar, dos braços segurar a espada, do cérebro conceber planejar a melhor estratégia, do instinto perceber onde há perigo. Na batalha do corpo ocorre o mesmo. Os deuses prezam o homem valoroso; cuidar do corpo é possibilitar uma maior estadia com eles. É disponibilizar-se a possível presença deles. Assim, é preciso estar atento aos sinais, às metáforas da vida e da morte.

Eirene;

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Fins de Ciclo: velhice, morte e ancestralidade

Nos dias de hoje, onde beleza e juventude são tomadas em dimensões absurdas – algo não muito diferente do que ocorria no mundo helênico clássico – a dimensão temporal e espacial daquilo que é fundador, que é ancestral, que enfim, estabelece laços, é esquecida ou perde espaço frente a outras medidas e necessidades em torno das quais a vida moderna se estabelece: um bom salário, o carro do ano, casa própria, relacionamento satisfatórios. E então vem a questão: de onde viemos e o que fazemos com isso?
Característica comum a muitas religiões étnicas pré-cristãs é o lugar de prestígio e importância atribuídos ao culto dos ancestrais. Por ancestrais entende-se toda a linhagem de predecessores (predominantemente) consanguíneos, mas em aspecto mais geral aqueles que se vinculam à família, estando assim na esfera do Oikos; dessa forma também se incluem nessa rede a partir dos tempos mais tardios da época clássica amigos muito devotados e heróis.
 O que gostaria de propor então é uma leitura dos ancestrais pautadas em dois aspectos, que não necessariamente se estabelecem de forma binária, havendo outras possibilidades que não estas, tratarei apenas das que me interessam nessa reflexão. Essas dimensões dizem respeito cadáver (seu trato e lugar) e as honras fúnebres (ou das funções da comunidade para com o morto), abordando-as de modo a entender como o trato com os mortos, na esfera da religião, passa necessariamente da esfera doméstica ao público.
 É bem sabido que o que temos de informação sobre a história da religião grega é em sua maior parte fonte de registros históricos e arqueológicos daquilo que se entende como religião civil, ou seja, o corpus de práticas e crenças defendidas pelas polis como “normativas” ou tradicionais. Isso implica em todo um aparato ritualístico e procedimental inteligível como um relacionamento saudável e adequado entre mortais e imortais. Em paralelo ao culto civil temos o culto doméstico, centrado na dimensão do privado, da casa. A casa em si guarda uma série de segredos e práticas que não devem sair desta dimensão porque dizem respeito unicamente àqueles que nela residem e dela sobrevivem. Na esfera do civil encontramos as manifestações públicas como as súplicas coletivas pela vitória nas guerras e pelo fim das secas; no doméstico encontramos práticas particulares algumas das quais não reconhecidas ou legitimadas pelo Estado.
O culto dos mortos encontra-se na interseção entre civil e doméstico. Apesar de pertencer predominantemente ao trato do lar, alguns cultos aos mortos e celebrações fúnebres ganham dimensões tão grades que passam a ser incorporadas nas práticas do Estado. É este o caso de alguns heróis, a exemplo do curador Melampo, cujo culto cresceu de forma tão surpreendente que as honras fúnebres oferecidas por devotos e familiares são incorporadas dentro do corpus ritualístico da pólis. Há ainda o culto aos mortos e ancestrais que tem sua origem dentro do próprio Estado, seja por pessoas que tiveram especial importância para a cidade – a exemplo de Teseu para a Ática – ou que estão envolvidos em atividades importantes para a cidade e morreram por isso.
Segundo o helenista do século XIX, Fustel de Coulanges, hoje um pouco esquecido por parte dos estudiosos, mas que ainda assim foi um importante pensador do mundo grego em seu tempo, é a partir de cultos domésticos como estes centrados nos mortos que surgem os deuses olímpicos. Essa idéia, apesar de controversa pela teoria histórica hoje, é também tomada por alguns helenistas mais recentes que tomam essa versão como uma possibilidade para o crescimento de religiões e cultos de mistérios. (cf. Kérenyi, 2005).
Apesar da aura de miasma na qual se envolve as honras fúnebres e o funeral em si, o sepultamento no mundo antigo não é visto como algo infausto. Como nos diz Coulanges, “não era pela ostentação da dor que se oficiavam as pompas fúnebres, mas pelo repouso e felicidade da alma do morto” (1979,13). Essa idéia é visível no canto XXII da Ilíada, a despeito do sepultamente do cadáver de Heitor.  Nesse exemplo vê-se as angústias do homem grego em dar a alma uma casa, aliás, devolvê-la à sua casa. Isso porque é na sua casa que o cadáver, o morto, agora consagrado sob o lugar de ancestral, de fundador, pode estender suas graças por sobre a família. Exemplos disso vemos por exemplo no Alceste de Eurípedes, quando este diz: “Tu, que és um deus sob a terra, seja-me propício”. Uma distinção todavia precisa ser feita. A importância do morto está no cadáver, no que é corpo, sendo efetivas assim a urgência em dar-lhe casa, dar-lhe uma cova. A corporalidade é sumária neste aspecto.
O morto é visto como forte e ativo mais pelo ser e pelo corpo que pela idéia da alma, diferente das crenças atuais. O corpo aqui desempenha um papel fundamental. O poder do morto encontra-se na força de seu corpo, o peso que impõe sobre os demais. É bem sabido que os gregos, ao menos na dimensão pública da religião, viam a alma como um sopro, algo sem idéia e sem vida, de modo que se poderia até pensar ser o corpo a dar vida à alma e não o oposto. Todavia esta é uma discussão que por agora não nos interessa.
No mundo antigo o corpo é reivindicado pela família; deve estar próximo, à entrada da casa regulando assim as proteções e bênçãos a quem reside na casa e a quem a freqüenta. Na mesma posição o morto malfazejo amaldiçoa – à família e aos visitantes.   
Ainda com esse poder, essa força sob o qual encontra-se a aura do culto aos mortos, este culto não é visto como obrigação ou dever de obediência. Estendendo a visão de Otto sobre o culto aos deuses para este aspecto particular das práticas religiosas, acredito que o culto aos mortos, dentro do corpus da religião, está relacionado a uma espécie de amor e não a um suposto dever de obediência e obrigação.
O deus grego não é um amo, não é uma vontade imperiosa. Como divindade exige reconhecimento e respeito – mas não sectarismo, nem obediência incondicional; menos ainda uma fé cega. (Otto, 2006: 119)
Como explica Otto mais a frente, apesar do temor da morte, o culto ao morto não se verifica por ser o homem “forçado a submeter-se”, mas sim por respeito e devoção aquilo que o morto representa para a família e para a comunidade. Sendo assim, suas ações, sua memória são honradas como exemplo de ser, de elaboração moral, caso o seja.  
Com o desenvolvimento da polis, o Estado desenvolve dispositivos de controle e regulação sobre nascimento e morte e doença, aspectos aos quais o miasma se liga mais rotineiramente. O surgimento de instituições como maternidades, casas de parto, cemitérios e hospitais implica uma paulatina revisão nas funções de família e Estado nos deveres para com o miasma. Similar à pesquisa da antropóloga Mary Douglas (Pureza e Perigo) observa-se que os rituais de purificação contribuem para o estabelecimento daquilo que é tabu. Todavia, aquilo que é tabu não pode ser rejeitado, antes são criados espaços de limpeza, arquiteturas higiênicas para vida, reprodução, doença e morte. É nesta dimensão que grandes rituais de cuidado aos mortos transpõem a dimensão do privado e do particular e tornam-se ferramenta regulamentar do Estado.
Tratando-se da especificidade de cada polis, não é possível pelo material a que tenho acesso identificar grandes rituais fúnebres pan-helênicos. Em todo caso, há alguns cultos que obtiveram maior destaque nas relações que extrapolam as dimensões da cidade e que foram registradas por alguns mitógrafos, historiadores ou tragediográfos em geral. A título de exemplo pode-se citar a celebração de Kataklismas, um festival ático centrado nas pessoas que morreram no mar. Neste tipo de ritual encena-se preces, clamores às vítimas, bem como os deuses que protegem o mar a exemplo dos Dioscuroi, Posídon, Afrodite entre outros são honrados pedindo-se proteção aos que vivem de atividades que se relacionam com o mar, como pescadores e comerciantes, além dos viajantes como um todo.
Á guisa de conclusão acredito que o aspecto maior a desta reflexão está na importância  atribuída àqueles que abriram espaço para que estivéssemos aqui, mesmo que, no contexto atual, com freqüência eles compartilhem de opiniões e crenças diferentes das nossas. Discordâncias desse tipo foram freqüentes em todos os momentos da história e, acredito, não devem afetar a relação de respeito e consideração a estabelecer-se com os mais velhos e com os que já se foram. Esse tipo de pensamento é recorrente em tradições religiosas politeístas e monoteístas do oriente  que sobreviveram apesar da ocidentalização, a exemplo do hinduísmo, da religião tradicional chinesa, e de maior parte das tradições budistas do Japão, para citar as mais recorrentes.  O envelhecimento é um aspecto importante de uma sociedade que vive cada vez mais. É preciso não apenas estarmos preparados para a velhice, mas entendê-la como um exercício de prudência e cuidado.
Ésto!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Da Microfísica dos (des)afetos


Certamente os problemas de relacionamento não são uma novidade do mundo contemporâneo. A esterilidade das relações e a  incomunicabilidade que é tão comumente repetida pelos autores pós-modernos já apareceu em momentos anteriores ao presente, salvo as distinções e graus pertinentes a cada época.

A tarefa de viver em comunidade certamente é um desafio, daí decorrem uma série de dilemas morais, éticos e junto a isse todos os dispositivos reguladores e contingentes das relações entre as pessoas no seio da sociedade. Em contraposição a necessidade premente de laços, de amigos e companheiros, os gregos reconheciam haver uma parte não educada do ser humano, reconhecia-se isso como uma virtude a que eu tenho costumeiramente chamado de "elaboração do ser", ou seja, uma série de posturas e condutas não catalogáveis por serem de esfera subjetiva e pessoal com o objetivo desenvolver no homem as virtudes da kalós, da areté e do agathos. Notoriamente os gregos reconheciam como bárbaros todo aquele que não fosse um semelhante, que não fosse "um grego", e acredito, isso implica substancialmente essa indisposição a elaboração de si nos termos helênicos da época clássica. Nesse contexto, os deuses olímpicos aparecem como modelos de ser, padrões que não necessariamente devem ser copiados, mas honrados. O devoto apresenta-se frente ao deus da forma mais limpa, mais honrosa. É preciso ser herói.

A questão, todavia, é que não necessariamente nossas redes de relações são feitas por amigos, vizinhos e familiares. A mesma necessidade premente de amigos nos imputa a possibilidade dos inimigos, dos desafetos. Como lidar com isso no processo de elaboração do ser para a honra, para a virtude, para a kalokagathias a que se referia Platão?

De modo geral, a amizade representava para os gregos um laço maior que o sangue ou o simples convívio, por isso as palavras tradicionalmente atribuídas a "amigo" (philos) é marcada em distinção a outras categorias tais como estrangeiros, vizinhos, concidadãos, colegas de trabalho e até mesmo esposa/marido e demais familiares. É como dizer que alguém pode ser seu "philos kai syngeneis" (amigo e parente), mas o laço de parentesco não constitui a amizade por si, contrapondo-se assim a dizeres modernos do tipo "seus pais são seus únicos amigos", ou "amizade de verdade só de mãe". Acredito que essas crenças que se fundem a um biologismo de aspectos que na verdade estão numa esfera do social e cultural precisam ser relativizados e problematizados para que assim possamos ter um real entendimento deles. A família estrutura-se por laços de dependência, parceria e responsabilidades distintas daquelas daqueles mecanismos de sociabilidade fora da esfera doméstica. As funções e expectativas que podemos estabelecer sobre uma mãe não são as mesmas que as esperadas de um "amigo". Uma família pode ser enriquecida por amigos, mas estas ainda assim são classes distintas, o que podemos ver por exemplo em Calicrátidas, um filósofo neopitagórigo, quando ele afirma "o bem que vem dos amigos contribui para a vida doméstica, que assim se torna maior e mais distinta, não apenas pela propriedade ou quantidade de parentes, mas também pela abundância de amigos" (In Sobre o Bem-Estar do Lar, apud Konstan: 2005, 79)². 

Mas, afinal, o que é um amigo?

Não acredito em qualquer tipo de fidelidade, e sendo assim, prezo pela responsabilidade e transparência. Fosse eu responder a esta pergunta seria tanto mais uma divagação pessoal no nível da subjetividade que qualquer outra interpretação sobre a história social da vida privada na Grécia Clássica ou Arcaica. Sendo assim a saída que encontro está em buscar entender o que não é um amigo, o que desclassifica alguém dessa categoria. Refletindo sobre todos os mitos que me vem a mente retratando a amizade entre mortais, deuses, daemons ou dessas classes com outras, reparo que são dois os elementos que desqualificam alguém da categoria de philos: a ingratidão e a desonra, sendo a primeira aquela que tem maior peso.

Ao pensar na amizade de Ártemis e Hipólito, Athenas e Hérakles, ou Ela mesma e Diomedes dentre tantos outros testemunhos exemplares de amizades que nos é trazido pela mitologia grega observo que a amizade é antes de tudo um exercício de admiração pela beleza ou nível de elaboração de si em outro e também de responsabilidade. Partindo da ideia de Platão para quem a amigo são dois corpos numa só mente, é preciso cuidar desses corpos para que a mente funcione em sintonia; é tarefa do philos preservar moral e fisicamente do outro. A amizade constitui-se então da ortopraxia cotidiana dos afetos, do cuidado e do zelo. É nesse aspecto que a Philia se relaciona a Philotes, filho da noite e que é personificado sobre a ternura.

É a ternura símbolo maior da amizade, porém não me refiro com ternura a esta concepção romântica do sentimento. Como filho de Nyx, Philote associa-se a uma série de outras divindades marcadas pela antiguidade e pela preservação do ancestral, como as Moiras, Gueras (a velhice), Momo (sarcasmo), Nêmesis e as Queres. É antes de tudo um potencial ativo, de preservação e cuidado, semelhante a seus irmãos. A ternura na dimensão do amor filia, do amor entre amigos é o sentimento de preservação e cuidado, do embate por um ser que lhe é importante, pelo cuidado. Ternura aqui é antes de tudo, a disposição para a ajudar, para estar próximo sempre que necessário.

Quebrada a ternura, seja pela desonra dos laços que fazem a amizade, a sua traição, ou pela ingratidão, inicia-se o regime do desafeto, da falta. Aliás, sobre essa ingratidão, já referida por mim como o maior dos males neste caso, Xenofonte³ aponta que já na infância as crianças eram ensinadas a odiar este tipo de conduta, pois "aqueles que são ingratos são também negligentes em relação aos deuses, aos pais, à pátria, e aos amigos". Mesmo referindo-se em seu texto às crianças persas, esse era também uma instrução comum entre as crianças gregas. Um amigo traidor era um incômodo, algo indesejável para toda a comunidade. É nesse aspecto que o amigo é um ponto de mutação, um lugar intermediário entre aquilo que constitui-se como obrigações do bom cidadão: os laços de consanguinidade e o seu dever para com a Pólis, o Estado. Assume assim uma importância fundamental, visto que é uma escolha deliberada do sujeito. Em todo caso, é preciso saber escolher seus amigos pelas virtudes.

Em contextos espaço-temporais como o nosso, marcado por construções de sentimento ainda muito instáveis a ponto de poder entendê-los, é complexo entender como são construídos os laços de amizade e companheirismo, motivo pelos quais eu acredito ser importante esse olhar para o passado. Possivelmente essa instabilidade e (im)possibilidade momentânea para o entendimento sejam os aspectos que mais contribuem para a sensação de inexistência desses valores, ou de sua fragilidade.

Retomando a ideia que me propus a debater, a inimizade surge como algo indesejável não só para o indivíduo, para a sociedade também. É nesse aspecto que a traição é tão presente tanto na mitologia como na própria história, operando como modelos punitivos e também como exemplo a não seguir.

Partindo de uma reflexão pautada na areté, entendemos que não há um código ou um catálogo de respostas para a ingratidão, a traição ou desonra. Cada situação tem demandas próprias e os gregos entendiam isso bem,  o que não implica que suas ações sempre fossem as certas. Em todo caso, o princípio está em que não há nada absolutamente bom ou mau, pelo contrário, esse binarismo não é tão somente rejeitado como desacreditado. A escolha do indivíduo deverá ser sempre marcada com a consciência da situação, do empenho em melhor solucionar. Recolhendo alguns exemplos na mitologia, várias são as soluções tomadas: a vingança, a retaliação, o afastamento, o apagamento, ou até mesmo o simples ato de ignorar. Em todos os casos prevalece a imagem de que não é apenas desonrado aquele que é traído, mas substancialmente ambos são feridos pela desonra, ambos estão sujos, e por isso, é preciso providência de ambas as partes. Daquele que não cuidou de seus afetos, instaurando assim um desequilíbrio nas relações da pólis, seja pela negligência, seja pela incorreção, o estado precisa ser reparado.

Acredito que transpondo esse pensamento pro mundo moderno, certamente há mais uma diversidade de modelos e formas de responder as quais não interessavam ao mundo grego, mas que podem ser revistas hoje. O diálogo, o esclarecimento podem ser uma dessas, pois apesar de presentes, afetivam-se mais na esfera das relações entre estado, nos laços de amizade entre governantes, do que na esfera privada. Em todo caso, acredito e os gregos são um testemunho do sucesso dessa forma de pensar, não há respostas prontas. Cada um é senhor de si para cuidar de seus problemas, seja por meio de equações, inequações, ou simplesmente respostas em branco, em todo caso, essa tão minuciosa microfísica dos (des)afetos não se fará simplificada, constituindo sempre um universo de desafios e contínuos questionamentos.


Notas:
¹ - Athena ajuda Diomedes. Detalhe de amphora ática.
² - KONSTAN, David. A Amizade no Mundo Clássico. Trad. de  Maria E. Fiker. São Paulo: Odysseus, 2005; 
³- A Educação de Ciro  

Sugestões de Leitura
-  Elisabeth Belfiore. Muder among friends: violation of philia in Greek tragedy. Oxford: Oxford Press, 2000.
- David Konstan: The Emotions of the Ancient Greek: studies in Aristotle and classical literature. Oxford: Oxford Press, 2006.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Preces para Pipe

O presente artigo constitui-se de algumas preces elaboradas por mim com objetivo de pedir o auxílio dos deuses na cura de um pequeno. Espero que possa servir de ajuda não só pra este pequeno, necessitado no momento, mas também para outros. Se assim quiserem e tanto quanto mais poderem, os leitores deste blog podem contribuir com suas preces para que Andrés se recupere bem e tão rápido quanto possível. Para ler um pouco mais sobre as preces aos enfermos, clique AQUI. Bem... vamos lá!

(à luz deles, sob a fumigação de aromáticos)



I - à Héstia (a consagração da chama)
Divina Héstia
por todos  coroada
 em nossos corações arde tua chama
fogo passado e alimentado, perpétua tradição
Vens aqui, agne, vestida de branco
e envolve nossa casa em teu canto
deixa teu cheiro de óleos adocicados
para que se aproxime  o daemon da alegria e de boa sorte
o divino filho de Chronos, protetor desta família


II - para Apolo e seu filho 

Ó bondoso Pytho
que tão suave e forte
espalha a ti em brilho
deixa tua flecha solta
e traz junto a teu filho
o curador habilidoso
a graça já pedida
para que sem dano,
sofrimento ou agonia
chegue saudável e
em alegria
o menino, tão pequeno
a teu serviço dedicado

Tu Febo, multifacetado
atirador de flechas do arco prateado
leva para longe o malefício e a doença
junto de Asklépio e seus numes sagrados
devolve ao pequeno a saúde
e à casa seu real contento.


II - A Zeus

É por Zeus
altissonante portador dos trovões
e tempestades que chama neste canto
Ó tu, juntador de nuvens, purificador
Recebe esta prenda digna de teu nome¹
e faz em nós a limpeza desse desencanto
remove aqui, Pater mou, o problema e a doença
a dor e a desavença, lava em água purificado
teu pequeno devoto em serviço prestado
e deixa à família a criança, a cura
como toque de divina 


¹ - Espera-se que o postulante ofereça alguma oferta que pode ser um incenso, uma vela ou algo mais elaborado. 

domingo, 21 de novembro de 2010

#2 e #27 - 30 Dias de Hellenismos - História e Comunidade


A questão que coloco a debater é a seguinte: como construir uma tradição sem um percurso histórico? É possível? Qual a posição e os problemas do reconstrucionismo helênico nesse movimento de volta às antigas práticas religiosas ?

O que observo é que nos últimos anos o movimento neopagão vem se subdividindo numa série de organizações, separadas muitas vezes por apenas questões de afinidade na liderança, e que costumeiramente se chama "tradição"... e essas são inúmeras. Mas o que é uma tradição? 

Reconheço uma tradição como um conjunto de práticas sociais executadas por uma comunidade e que tem como objetivo a perpetuação de certas práticas ou idéias sociaios que são importantes para esse grupo, sendo essas mesmas práticas, herdadas de outros membros mais antigos da comunidade. No entanto, para que essa tradição possa se estabelecer  é fundamental o tempo, ou mais precisamente o 'longo tempo', que permite que essa determinada comunidade possa construir e legitimar essa tradição. 

É esse o elemento fundamental das religiões pagãs, porém também um dos seus grandes problemas. Como um dado grupo que tem muitas vezes pouco menos de década de existência pode legitimar-se como tradição? Como e quais os elementos que definem essa tradição e a diferencia das demais ? 

Não tenho resposta para essas perguntas, mas como questionador que sou, acredito que sejam estas perguntas que qualquer adepto de uma religião pagã contemporânea deve fazer-se para contribuir com a legitimidade e reconhecimento de sua orientação religiosa como algo sério. Religião não remete unicamente à práticas cultuais, mas essencialmente a uma vivência dessa religiosidade; religião é antes de tudo experiência do sagrado compartilhado, vida em comunidade, independente das fronteiras geográficas. O que caracteriza uma prática cultual no contexto religioso é uma relação de pertinência e reconhecimento que esta estabelece em relação a algo superior que se partilha com uma comunidade. Não existe religião sem comunidade; isso seria apenas uma crença pessoal.

Mas qual a relação do reconstrucionismo com essa necessidade de ancestralidade, de tradição? Sem dúvida a mesma que a das demais religões pagãs, porém, como religião étnica que é, temos um legado histórico, especialmente o Hellenismos que é religião de um povo que tem um impacto profundo sobre a vida ocidental. Porém não estamos isentos das preocupações de qualquer outro grupo religioso, mas temos este problema num nível diferenciado: enquanto as expressões mais novas do movimento pagão procuram construir sua identidade religiosa com base em práticas que lhe são convenientes e necessárias, o esforço do Hellenismos é    o de dar continuidade a uma tradição em certa medida interrompida. Em certa medida, isso é fácil, acontece que o problema é maior; vivemos num mundo diferente. Aos moldes do Pierre Menard de Borges, nosso problema não é ser politeísta helênico reconstrucionista nos tempos de politeísmo helênico, mas ser politeísta helênico reconstrucionista nos dias de hoje. 

Como reconectar nossa visão do mundo com um mundo que hoje é sensivelmente diferente, apesar de nas suas bases similares à Grécia Antiga ?

Não bastasse ainda esse problema, coloco mais uma questão: toda comunidade requer uma organização, como reconhecer a legitimidade de sacerdotes e sacerdotisas que se perpetuam pelo meio neopagão sem qualquer instrução necessária, baseados apenas em leituras, ou pior, intuições pessoais? Que impactos provocaria isso sobre uma comunidade pagã? Pode-se falar numa comunidade pagã ?

sábado, 2 de outubro de 2010

Senta aí que vamos falar sobre sexo

Esse é um blog sobre religiosidade helênica sim, só que religião não é um sistema social isolado do resto da vida. Essa visão que nós aprendemos na escola das coisas, tudo muito marcado, tudo muito distinto e separado é muito diferente da nossa realidade. Religião, política, sexo, humor, tradições, ética... são coisas que estão completametne interrelacionadas a tal ponto que qualquer uma delas poderia falar sobre as demais sem qualquer problema.

Mas do que sexo, pretendo aqui falar um pouco sobre sexualidade e questões políticas que costuram essas temáticas: sexo, sexualidade, orientação sexual, religiosidade, estado de direitos, estética.. E isso tudo porque me incomoda profundamente essa visão que perambula pelo mundo da sexualidade helênica da antiguidade como  uma verdadeira orgia (no sentido vulgar do termo), uma putaria geral, onde todo mundo era gay e todo mundo comia todo mundo. Os de coração fraco que me perdoem, mas creio que os leitores desse blog são pessoas inteligentes e bem resolvidas, e sendo assim, usarei do palavreado que me convier, quando achar necessário.

Pra início de conversa, a sexualidade grega é bem mais complexa e bem mais diversa do que se pensa; enquanto se fala muito da questão homoafetiva ou pederastia, na concepção histórica do termo, esquecemos muitos outros elementos que são fundamentais, a exemplo das concepções de amor, da amizade, do casamento, do sexo como profissão e como "castigo"...  que eu pretendo abordar nesse breve espaço.

É um argumento que eu uso muito, ams que é fundamental na concepção de toda produção cultura lgregas:o fato de que a antiga Hélada, a nossa Grécia, não era um estado unificado, um país ou uma nação no conceito moderno, mas sim um agregado de cidade-estados, com uma estrutura cultural e política distinta e com aspectos religiosos e linguísticos que apesar de apresentarem um núcleo semelhante, também apresentavam variações de um lugar para outro,mas que os unia.

Então é o caso de se dizer que não haveria uma única forma de entender a sexualidade, pelo simples fato dela se manifestar segundo aspectos culturais que eram diversificados e por pessoas das mais diferentes origens em constante interrelação. Mas o que podemos abordar são os aspectos gerais dessa sexualidade, vez por outra apontando aspectos específicos. 

Comecemos pelo amor... amor não era (e ainda assim não é) uma condição fundamental para o sexo ou para o casamento na Grécia arcaica e clássica. Fazia-se sexo por puro desejo, ou por amor, ou por vontade, ou por necessidade. O casamento nesse contexto funda-se essecialmente com uma instituição de aspecto político e social, mas não necessariamente afetivo. O casamento em grande parte das polieis era uma forma de se ter filhos autênticos gerados por cidadãos, e assim garantir a continuidada da vida em comunidade, das frátrias. E considerando esses aspectos, são muitos comuns os festivais que visam por um lado, reconhecer esses filhos autênticos, legítimos, prepará-los e inseri-los para a vida na comunidade, mas também há os festivais que têm como objetivo acolher e dar o mínimo de assistência aos  filhos bastardos, frutos de casamentos não possíveis ou ilegítimos. 

Pois se por um lado o casamento era unicamente um acordo, por outro havia sim o sexo visto como uma atividade prazerosa (alguns a condenando  e outros a glorificando).  Assim aparecem as figuras das hetarias e pornoi/pornai; personagens fundamentais para a compreensão da sexualidade grega. A prostituição é listada entre os gregos como uma profissão como qualquer outra, existindo não só prostitutas mulheres, como homens também, conforme aparecem representadas por diversos autores como por exemplo aparecem nios diálogos de Sócrates, ou nos textos de Estrabão e nas peças de Xenofontes. É preciso também que se faça uma rápida distinção entre as pornai e as hetarias. As pornais geralmente eram escravas ou cativas de guerra; eram as prostitutas mais baratas que em muitos casos ficavam sob a tutela de um proxenata em pequenos albergues que na altura da antiguidade eram chamados de pornoboskós, algo como um prostíbulo. Já as hetarias eram mulheres independentes, muitas vezes com certo conhecimento de épica, filosofia, ginástica ou gramática, bem como tocadoras de instrumentos, e que na hierarquia social eram bem mais reconhecidas e valorizadas. A história menciona inúmeras hetarias famosas, como por exemplo Aspasia, que foi amante de Péricles, Teodota e Finés, sendo esta última modelo de Praxtíteles para a Afrodite Cnido. 
A prostituição masculina existia, sendo requisitada por homens e mulheres, porém há poucos registros para esse fato, sendo a mais conhecida aquela feita por Xenofontes na peça Pluto. Além da prostituição masculina, outro fato nesse universo pouco registrado, mas que se tem conhecimento é a prostituição sagrada. Em suma, o que se sabe é que alguns templos, em especial os templo de Afrodite em colônias distantes e o de Corinto albergava inúmeras prostitutas, sendo inclusive reconhecido a oferta feita por um cidadão chamando Xenofonte (não o trágico) que ao vencer as provas de pantatlo e corrida darante os Jogos Olímpicos fez o aferta de cem mulheres para o templo de Afrodite em Corinto.  Outra questão relevante no estudo da sexualidade helênica é a estética. Aos primeiros olhares, quem analisa as representações de prostitutas e até mesmos de pessoas comuns da Grécia Antiga, inclusive em  algumas estátuas, pode deparar-se com padrões de beleza destoantes da beleza clássica defendida pelos gregos. Nesse caso é preciso que se compreenda a beleza como um produto histórico. Cada cultura elabora para si padrões de beleza que lhe são convenientes e que corroboram com as suas crenças. É dessa forma que hoje em dia temos um padrão de beleza que circula o andrógino, a alguns anos a magreza feminina, já durante a Renascença a gordura aparece como ideal de beleza e da mesma forma na Pré-História, bem como durante à Idade Clássica, criou-se a idéia de belo como equilíbrio nas proporções (e até mesmo no espírito, na inteligência e na alma, segundo alguns). 

A questão da homossexualidade é ainda mais polêmica. É recorrente o pensamento de que na Grécia clássica a homossexualidade era comum, porém eu sou do partido que só se pode classificar aquilo que é possível, e se pensarmos que definições como 'heterossexualidade', 'homossexualidade' foram criados por volta do século XIX... XX e termos como 'bissexualidade' e 'pansexualidade' serem mais recentes ainda não se pode dizer que os gregos fossem gays ou heterossexuais ou bissexuais que fosse, visto que esse sistema de classificação não caberia ou seria adequado historicamente. Podemos sim mencionar que havia o predomínio de certo padrão, mas nem isso pode ser atestado como verdade absoluta.
A Pederastia, que mais uma vez caiu no censo cumum e acabou por perder todo seu campo de signifgicação primitava, passando a palavra designar o abuso de crianças por adultos do mesmo sexo, e a própria idéia de pederastia em homossexualidade, quando na verdade não é bem assim. A Pederastia aparece na história Grega como um sistema de apóio à educação. A partir de certa idade um jovem cidadão poderia ser "adotado" por outro mais velho, a fim de que este ensinasse artes militares, a vida em sociedade, hábitos masculinos entre outros, podendo-se até mencionar a atividade sexual. Nesse ponto não se pode determinar se havia ou não relacionamentos sexuais, por mais natural que isso possa parecer, pois em algumas cidades há leis que proíbem o abuso do menor, o eromenos. Há ainda registros de que a posição passiva durante o ato sexual era vista como uma redução do vigor masculino, sendo um grande insulto ser chamado como "frouxo", "folgado" em termos correspondentes aos dialetos locais. Porém, eu sugiro que esses xingamentos sejam vistos de outra forma, não como uma degradação do ato sexual, valorizando ou menosprezando a posição de um ou outro parceiro, mas sim como um xingamento necessário para que não se exponha a intimidade do casal. Se considerarmos que Hera, a deusa do casamento era uma deusa intimamente relacionada ao decoro, expor as relações sexuais do casal, era um erro que não caberia, e que merecia sim, punição.
Já do outro lado dessas correntes, era possível em algumas cidades da Grécia o casamento entre pessoas do mesmo sexo, algumas em termos explícitos, outras não. Na antiguidade havia verdadeiras competições por alguns eromenos. Para algumas famílias, era até conveniente que o seu filho tivesse relações com um erastes de alto prestígio, visando assim a ascedência desse. Alguns historiadores afirmam que o aspecto estético da pederastia era muito frequente, mas era essencialmente uma instituição social, fundamental, de modo que, segundo Platão, era algo que diferenciava os gregos dos bárbaros. Ainda sobre a pederastia, é preciso que se diga, sendo alguns historiadores, é uma instituição que ultrapassou os limites da Grécia, sendo encontrados indícios não só no mundo helênico, mas em diversas partes do mundo antigo e fora dele,  a exemplo da Coréia, Japão, China e no próprio Oriente Médio. 

Outra questão de grande confusão é a homossexualidade feminina. Em geral, o idel grego de mulher era marcado por um certo decoro doméstico. As ruas não eram lugar para uma mulher "decente", e quando casada, pouco se permitia que fosse além de sua casa, sendo ela a responsável pela manutenção da mesma e do cuidado da família. O acesso à educação era restrito, sendo em algums polieis muito comum, enquanto em outras um grande tabu. Basta que se mencione o caso de Sapho de Lesvos, que não se sabe ao certo, tinha grande afeição por suas alunas a ponto de ter relações sexuais com elas. Mas como o lado "sujo" de todao história acaba sendo o que ganha mais destaque, acabou-se por identificar Lesvos como a ilha das lésbicas, vindo o próprio termo do nome da ilha.

O que se pode dizer hoje em dia, sobre o a homossexualidade e sobre o casamento, é que cada pessoa tem total responsabilidade sobre suas escolhas, obedecendo a certos padroes éticos, que no nosso casos incluem as Máximas Délficas e os conselhos de Solón. Sendo o casamento uma instituição religiosa, cabe à cada organização definir se ele seria ou não possível dentro de suas crenças. Já com relação aos direitos civís para a união civil reconhecida, é algo que está para além do campo religioso, o que deve-se diver como uma grande vantagem, visto que a grande maioria das instituições religiosas que são maioria do mundo contemporâneo são contra a união civil homoafetiva. Já com relação às mulheres, o que defemos é o pleno exercício de seus direitos e a igualdade de condições para homens e mulheres, de todas as etnias e idades.

É evidente que há uma série de outros temas que não foram abordados no pequeno espaço desse artigo, até porque não seria possível, mas o que se pretendeu aqui foi fazer uma breve explanação história e um posicionamento de geral de minhas opiniões, que de certo modo confluenm com as opiniões do movimento reconstrucionista helênico no Brasil.

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Crédito das Imagens:
1 - relevo de moeda expondo Afrodite de Cnido, de Praxíteles
2 - Afresco mostrando erastei e eromenoi num Symposium do século V AEC 

Recomendações de Leituras:
Amor, Sexo e Casamento na Grécia Antiga, Nikolaos Vrissimtzis ( Ed. Odysseus)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ritual de Consagração de uma Imagem para Culto



Então você conseguiu uma imagem pra colocar no seu altar?! Ótimo. Mas precisamos saber que uma imgem por si não é uma imagem de culto. O que diferencia uma representação dos deuses de uma imagem de culto é o status de consagração que lhe conferimos por meio de rituais específicos. Na antiguidade haviam rituais específicos para isso. Alguns mais simples, outros mais sigilosos e escabrosos, mas cada um com seu sentido e adequado às necessidades dos povos  que as utilizava. Exemplo: em algusn tiásoi da Beócia, onde Dioniso era cultuado, as imagens eram feitas em lenho de figueira e consagrado com sangue do bode que lhe era oferecido em sacrifício.
Certamento por um motivo ou dois nos dias de hoje isso não é tão viável ou coerente com as leis e princípios ambientais. Felizmente tenho por recurso a analogia, e podemos trocar os símbolos do ritual, lhe preservando o simbolismo, que é mais importante.

A seguir sugerimos um ritual bem simples para consagração de uma imagem pra culto.

Observações Prévias:

1 - A imagem deve estar totalmente pronta e limpa antes da cerimônia; sendo assim se for pintada já deve estar pintado, com o seu nome e eventualmente roupa e/ou acesórios (devidamente consagrados também).

2 - Como em todo ritual a ortopraxia exige a purificação e o uso de roupas limpas. A purificação pode ser feita com banhos de ervas, fonte ou mar.

O Ritual:

- Acenda a vela e a consagre recitanto o Hino Homérico a Héstia

- Consagre o espaço com água lustral: pegue um ramo  de louro ou arruda, queime na chama e com ele aspergir a água no espaço da celebração.

- Acenda o incenso

- Recite um Hino ao Deus a quem a imagem é dedicada

- A seguir a imagem pode ser untada com um óleo aromático dedicado a esse deus (amêndoas para Zeus, azeite para Athena, Rosas para Afrodite e assim por diante; caso não consiga elaborar uma relação para o deus em questão, pode-se usar o azeite mesmo).

- Faça a consagração da imagem por meio de uma declaração. Exemplo de consagração de uma imagem à Athena: " Oh Tu Ergane, de olhos verde-mar, conduzindo os heróis, Sempre amiga dos homens fortes e virtuosos. Eu que sempre canto teu nome e te ofereço líquidos e ofertas vem até mim. Isto é para Ti e em tua homenagem, deus de Olhos Terríveis, Filha do Zeus Porta-Égide. Oh Athena, preenche este ambiente com tua presença!"

- Verta uma libação, queime ofertas e faça preces, à sua vontade.

- Faça uma prece e libação final e encerre o ritual como de costume.



Obs.:

1 - A imagem de ilustração faz parte da celebração da Thargelia no YSEE
2 - O ritual pode ser adaptado pra consagração de outros objetos de culto,como cadernos de registro, utensílios de ritual e oráculos.

sábado, 10 de outubro de 2009

Negação ou Afirmação ?


Não pela primeira vez sou denunciado por acreditar nos mortos, e viver pelo passado. E é sobre isso que escrevo. Hoje essas denúncias chegaram a um ponto em que estou sendo acusado de negar a vida, pensando afirmá-la, com a crença pela qual opetei. Geralmente não costumo misturar temas especificamente pessoais, em especial minhas opiniões, com temas que tem um interesse geral. Acredito que nesse tipo de caso a melhor coisa a fazer seria expor os fatos como os vejo (afinal de contas, a neutralidade é difícil) e deixar que cada um opte pelo lado ou opinião que melhor lhe convier. Fato é que em situações como essa, onde somos minoria, querendo ou não aquele sentimento de que realmente estamos errados impera frente à  imensa maioria. Mas isso é, penso eu agora, absolutamente redículo.

Vamos aos fatos...  se fizermos um paralelo entre as religiões contemporâneas e a religião grega veremos que na verdade há uma imensa maioria de religiões que têm como foco a negação da vida, frente a poucas correntes de pensamento religioso, entre elas o Politeísmo Helênico, onde a vida é enaltecida e contantemente enobrecida e afirmada.

A religião grega não trabalha com essas possibilidades, ao menos não a religião cívica grega. Não há na religião grega relatos de crença pós-mortem, milagres ou coisas fo gênero. A religião grega afirma a vida, não faz promessas para depois ou constrói suas crenças com base numa moral do mais fraco; a moral grgea crê em valores maiores que a humilhação travestida de humildade: o heroísmo, a métis, a astrúcia , temperadas pela chabris, xênia, eusebia.

A religião grega vê vida e morte entrelaçadas de forma que uma não pode existir sem a outra. Os portais entre um mundo e outro existem, mas ocilam de tal forma que sempre se pode ver uma brecha entre a vida e a morte. Já os deueses sempre flutuam entre as esferas do humano e do divino. São "abrotoi", os de vida perpétua... 

A vida é sempre a essência da prática social, cultural e religiosa. Não se nega ou se foge da vida. A moral e todos os aspectos da civilização grega apontam para a experiência e para o engrentamente desse imenso "agon  kharismático".

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Complexo de Hipólito


Me incomoda bastante essa idéia que algumas pessoas recém chegadas ao Hellenismos têm de ver os deuses como possibilidades de escolhas. Aquela impressão que eles têm de que precisam escolher um deus macho, uma deusa fêmea e após isso está tudo pronto. Como já disse em outros ensaios, a coisa não é bem assim.

Dentro do contexto das diversas religiões neopagãs contemporâneas e as religiões históricas reconstrucionistas podemos observar que há diversas linhas de concepção teológica. Há as linhas duoteístas, como no caso do Zoroastrismo persa  e da Wicca contemporânea, há as monoteístas, via de regra vinculadas à tendências ocultistas ou espiritualistas e há linhas politeistas, como no caso do Hellenismos.

Em geral após algum tempo as pessoas acomodam-se no culto de seus deuses paterno e negligenciam a visão e a experiência em outros deuses, o que eu chamo de Síndrome de Hipólito, que eu relembro aqui apenas a título de tornar isto mais compreensível.

Hipólito era filho de Teseu e fora criado com Fedra, sua madrasta. Era verdadeiramente leal à deusa Ártemis, de modo que como tal, conservara-se virgem e casto, desrespeitando as necessidades humanas de amor, presente na figura de Afrodite, chegando até mesmo a desrespeitá-la. Em punição Afrodite fez com que Fedra, sua madrasta, concebesse uma paixão louca por ele, no qual teve a empregada do palácio como sua cúmplice. Mas não teve sucesso em sua tentativa de seduzir o jovem, leal que era ao seu voto de castidade. Repelida, Fedra acusou Hipólito junto ao pai de tentar seduzi-la. Hipólito fugiu montado em sua biga. Teseu baniu da casa o filho e pediu a Posídon que que fizesse o filho perecer. Atendend-o, Posídon mandou contra Hipólito um montra marinho que espantou os cavalos de seu carro e o moço morreu despedaçado. Fedra enforcou-se de remorso.



Não quero sugerir com isso que todos devam cultuar a todos os deuses do panteão, porque afinal de contas isso também seria uma forma de insolênia, hýbris, desrespeito. Não se pode dizer, como no hábito cristão, mesmo que falsamente, que "amamos os próximos como a nós mesmos". Evidente que cada um terá deuses com os quais é mais próximo, e se sente reconhecido e agraciado pelo favor do deus, mas não se pode negligenciar a ação e a celebração em favor dos demais. Falar para um decsonhecido e para um amigo de longa data que você ama aos dois de igual maneira soa como um desrespeito e total desconsideração.

Apesar de distintos, os deuses têm uma natureza complementar. Com suas virtudes e vícios, podem ensinar sobre a vida um fato que aparentemente não pode ser bem entendido na figura de um outro. Sendo assim, podemos entender sobre a métis de Atena enquanto estudamos sobre a placidez de Apolo ou celebramos o entusiamo dionisíaco.  É preciso considerar os deuses não como formas arquetípicas ou objetos em especial. distantes do nosso plano de ação e experiência. Eles estãõ tão ou mais próximos da vida em si quanto nós. São seres reais e partes da vida que é o todo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

A CONSCIÊNCIA – PARTE I

As Erínias são as despersonificações dos remorsos. Quando se comete um crime, e sobretudo quando um filho ou um pai manchou as mãos no sangue dopai ou de um dos parentes, Elas não tardam e aparecer e fazer ouvir o seu canto funesto,rodeando o criminoso com sua ronda infernal, e brandando-lhe aos ouvidos um horroroso hino no qual Elas reconstroem o crime.Não há mortal que lhes possa escapar; perseguem-no por toda parte, como o caçador persegue a caça,e terminam sempre por atingi-lo. As súplicas e as lágrimas não as comovem. Mas se as Erínias são inclementes com os criminosos, o que tem as mãos puras nada tem a temer delas.
Anteriores a Zeus e aos deuses olímpicos, que elas dizem ser divindades de data recente, representam na opinião pública, a antiga justiça, a única que conhecem os povos primitivos, a lei de talião; a todo crie corresponde um castigo. As inexoráveis deusas, que não conhecem perdão nem ouvem os rogos, estão relegadas ao fundo das trevas; não deixam a sua tenebrosa morada senão quando o cheiro do sangue derramado e as imprecações da vítima às chamam à terra. Divindades desventuradas, jamais participam nos banquetes dos Imortais; mas são infatigáveis quando é preciso perseguir o mortal e não lhe dão tréguas.
O pintor ateniense Nícias compusera sobre as Erínias um quando assaz celebrado na antiguidade. Aparecem as vezes em vasos pintados.estão figuradas sob a forma arcaica no altar dos doze deuses, no Louvre. Seguram um cetro encimado por uma romã, símbolo de seu poder, e a sua mãe esquerda aberta significa a justiça cujas prisões executam. No Hades, as Erínias, Alecto, Tisífone e Megera têm por missão castigar os culpados e tirar-lhes toda esperança de misericórdia.
Nos povos primitivos, a idéia de clemência e de perdão só aparece tardiamente, porque parece incompatível com a idéia soberana de justiça. No entanto, chega um instante em que a consciência humana pergunta a si mesma se uma falta não pode ser expiada mediante certas purificações e práticas religiosas. Aliás, a hospitalidade é o mais santo dos deveres: os templos são asilos sagrados e dos deuses podem repelir os suplicantes. Em face das Erínias que reclamam o culpado em nome da justiça inexorável, erguem-se os deuses do Olimpo que pretendem , às vezes, conceder o perdão. Como determinar o ponto exato em que a justiça deve deter-se perante a clemência ?